Joaquim Alfredo Gallis (1859-1910)

Um jornalista e romancista muito afamado no seu tempo exerceu o cargo de Administrador do concelho do Barreiro no regime monárquico. Na Grande Enciclopédia Luso-Brasileira constam algumas notas biográficas de Joaquim Alfredo Gallis, nascido em Lisboa em 1859, que “...exerceu, durante anos, o cargo de escrivão da Corporação dos Pilotos da Barra, e, em comissão, por vezes, o de administrador do conc. do Barreiro...”.
No Arquivo Municipal do Barreiro existe (foi-nos confirmado) o auto de posse, datado 1 de Fevereiro de 1901, de Joaquim Alfredo Gallis como Administrador efectivo do concelho do Barreiro, em substituição do Conde de Mesquitella. O secretário que homologou aquela posse foi Augusto César de Vasconcelos. Durante os anos de 1902, 1903 e 1904, Joaquim A. Gallis continuou a desempenhar o cargo de Administrador deste concelho, tendo sido substituído, já para finais de 1905, por Joaquim de Almeida Ferreira.
Acentue-se que o mencionado Augusto César de Vasconcelos (1867-1927), natural de Palhais (concelho do Barreiro), exerceu várias funções públicas e de assistência na então vila do Barreiro, tendo sido também o editor do primeiro jornal da localidade (O Sul do Tejo, 1893/94). A. Vasconcelos pertence à lista de jornalistas barreirenses.
O Arquivo do Barreiro também nos confirmou que a maioria da documentação do mandato daquele Administrador era assinada pelo secretário Augusto C. Vasconcelos. Lembremos que Gallis ocupou aquele posto em comissão; porém, para quase todos os efeitos, a missão de Administrador foi desempenhada, em muito, por seu secretário Vasconcelos.
De onde proviera aquele posto no Barreiro não muito trabalhoso para Gallis? Como dito acima, ele fora durante anos o escrivão da Corporação dos Pilotos da Barra. Manteve  contactos com o Rei D. Carlos, um entusiasta e perito da navegação marítima, beneficiando da simpatia do Soberano. (Destaque-se que um Administrador - cargo que desapareceu na II República - era como que um Governador Civil a nível de concelho).

Jornalista, escritor

Joaquim Alfredo Gallis começou cedo a redigir artigos e folhetins em jornais e revistas, como Instituições, Universal, Jornal do Comércio, Ecos da Avenida, Diário Popular (neste subscrevendo com o pseudónimo Antony). Também colaborou na insigne Illustração Portugueza. (Note-se que ele assinou, por sistema, textos e volumes como Alfredo Gallis, portanto sem o primeiro nome próprio, quem sabe se para evitar equívocos com um homónimo Joaquim Gallis).
Este homem das letras conquistou grande popularidade, também porque se especializou em textos impregnados de sensualismo exaltado. Alguém afirmou que os seus romances viviam “as fraquezas e aberrações de que eram possuídas, eram desenvolvidas entre costumes libertinos e explorando o escândalo...”, agitavam-se “... em lances ora de pura comédia, ora trágico-cómicos”. Escreveu mais de uma trintena de volumes (!), por vezes com o pseudónimo Rabelais, o escritor humanista francês, médico, sec. XV/XVI.
Relembremos alguns dos seus romances, quantos com títulos bem sugestivos: Mulheres perdidas, Chibos, Os decadentes, Malucos, Os políticos, Sáficas, Mulheres honestas, Os pelintras, A taberna, A amante de Jesus, Lascivas, Sensações fortes, Sensuais, O Sexualismo na antiga Grécia, O marido virgem, O algoz, A luxúria judaica, As mártires da virgindade, Devassidão de Pompeia, O abortador.  (Reproduzimos a capa deste último).
Há que destacar que Gallis foi o autor dos dois volumes da História de Portugal, apensos à História, de Pinheiro Chagas e referentes ao reinado do inditoso Rei D. Carlos. O escritor Joaquim Alfredo Gallis - que hoje certamente seria mais lembrado caso tivesse militado pela ascensão da República ao poder - faleceu em Lisboa mês e meio após a implantação do novo Regime, precisamente a 24 de Novembro de 1910. Contava pouco mais de cinquenta anos. (C. S. P.)