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Miguel Correia  (1889-1940)

Ferroviário, sindicalista, jornalista

Miguel Maria de Almeida Correia, nasceu em Beja em 30 de Abril de 1889, onde se criou e completou a instrução primária. Admitido nos Caminhos de Ferro, após tirocínio em pequenas localidades alentejanas, radicou-se no Barreiro. Aqui constituiu família e foi pai de sete crianças. Residiu em prédio de esquina da então Avenida da Bélgica, depois Alfredo da Silva.
Um vero autodidacta, telegrafista da estação do Barreiro dos Caminhos de Ferro do Sul e Sueste (então estatais!), tornou-se o lutador que mais se salientou, nos tempos da I República, em defesa dos interesses dos trabalhadores da sua classe. Foi, sem dúvida, um dos dirigentes sindicalistas mais conhecidos a nível nacional.
Quem se deu por amigo de Miguel Correia redigiu um comovente texto - não assinado - em jornal barreirense, do qual respigamos: “(Ele) .. viveu uma vida agitada e cheia de peripécias, tendo tido muitos ensejos de obter situações privilegiadas. ... apesar dos seus defeitos, que os teve, era um carácter e um lutador sincero e honesto. Era mesmo um sonhador. Sofreu durante a vida bastantes amarguras e muitas desilusões, umas que eram filhas das contingências perigosas em que se metia e outras lhe vinham da ingratidão de muitos daqueles que sempre defendeu, mas que só conhecem os amigos nos momentos felizes, esquecendo-se rapidamente deles se já lhes não podem ser úteis ... Muito do que essa classe obteve, tanto no campo moral, como material, o ficou devendo a Miguel Correia, que nunca se poupou a sacrifícios para defender aquilo que ele considerava “O bem comum dos ferroviários”. Cometeu erros evidentemente, ..., (mas) mais tarde ... reconheceu (-os)”. 
Em 1917, M. Correia dá um arranque à associação de classe das Oficinas Gerais, onde imperavam os anarco-sindicalistas. No ano seguinte é eleito Secretário-Geral da novel Confederação Geral do Trabalho. Continuam a dar-se grandes movimentações ferroviárias. Em Novembro de 1918 (quase coincidente com o armistício da I Grande Guerra em que Portugal sofreu morticínio) rebenta greve geral. (Isto com a aprovação de Miguel Correia). No sul não há comboios durante dias. Mas a greve redundou num fracasso, e M. Correia foi, como muitos outros, encarcerado.        
Em 1919/1920  sucedem novas greves. Após uma de 12 dias, Miguel Correia combate a ideia de outra longa paralização, mas desta vez não leva a sua avante. Eclode outra bem longa greve dos ferroviários do Estado, que no Barreiro ficou mais conhecida por greve dos 72 dias. Sucedem despedimentos colectivos. Foi uma calamidade para esses trabalhadores, que sofreram trágicas consequências, como a fome que grassou. (E de que modo no Barreiro..., onde ferroviários e suas famílias, para se alimentarem, plantavam isto ou aquilo em rossios, hortas, quintais). Em 1925, M. Correia é de novo demitido dos Caminhos de Ferro. Em Maio de 1926, os ferroviários, desiludidos com aquela República, cooperaram no transporte do Comandante Mendes Cabeçadas e suas tropas, vindos do Sul para tomar o poder em Lisboa. Cai a I República, o infeliz regime derivado, em especial, do Partido denominado Democrático. Estabelece-se a Ditadura Militar. Mendes Cabeçadas seria, por dias, o primeiro Chefe do Governo e do Estado do novo regime.
M. Correia escreveu: O Governo que caiu não tinha condições de servir qualquer das classes, nem o seu partido, detentor do poder (quase) desde a proclamação da República”. Mas Miguel Correia tantas vezes elogiado pelos políticos pela frente, e traído por trás, não era bem visto entre os militares. Em Setembro de 1926, foi ele deportado para Cabo Verde, onde trabalhou como apontador. Regressou à Metrópole, onde a família no Barreiro continuava a passar as mais agras privações. M. Correia quis mudar de vida, rumou para Lourenço Marques, Moçambique, em 1935, onde trabalhou como relojeiro e escreveu nos O JornalNotícias. A esposa e alguns filhos também se foram fixar naquela cidade. Poucos anos depois Miguel Correia é acometido de terrível doença, ficou semi-paralítico. Faleceu com apenas 51 anos, em Lourenço Marques, em 3 de Julho de 1940.  
O jornalista
Um conhecido correligionário de Miguel Correia recordou que este escrevia “cartas de vinte e trinta páginas, em letra bem cerrada e versando os mais diversos assuntos, sem excluir os de natureza cultural, ... foi um epistológrafo incorrigível”. Que se havia entregue de alma e coração aos seus sonhos laborais e era assíduo correspondente de jornais da sua classe.
Sim, Miguel Correia, muito escreveu em folhas sindicalistas, colaborando, por exemplo, no Germinal, de Setúbal, na Batalha, anarco-sindicalista, de Lisboa, no Rail (1915), do Barreiro. (Acentue-se que este Rail, de vida efémera, foi fundado por republicanos - não barreirenses - dos partidos de Afonso Costa e António José de Almeida. Mas em 1915 já se sentiam bem os indícios do tremendo radicalismo anarco-sindicalista e a perda da influência dos partidos republicanos no movimento operário, do que resultaria a anarquia, o caos).
A publicação a que M. Correia mais se afeiçoou chamou-se O Sul e Sueste, Órgão da Classe Ferro-Viária, quinzenário fundado no Barreiro em 1919, que em breve passou a semanário. M. Correia foi seu redactor-principal fundador, deixou-o por forças maiores, regressou em 1924. De início, o editor foi António José Piloto, sindicalista bem conhecido no Barreiro. Outros que muito participaram no tão difundido tablóide ferroviário foram Jorge Teixeira, Tomás Fernandes Calheiros da Gama e José Nobre Madeira. O último número d’ O Sul e Sueste saiu em 1933 no advento do estado corporativo..
O barreirense adoptivo Miguel Correia, idealista convicto, lutador dinâmico, polemista de respeito, orador de mérito, jornalista brilhante, não introdutor de ideologias da estranja, foi um sindicalista muito especial, quase se dirá único.
Citação: Conclui-se transcrevendo algumas linhas saídas na imprensa da autoria do próprio Miguel Correia (1920):. “O ferroviário...  deve possuir, sobre a multidão, o pleno conhecimento da sua índole nas variadíssimas manifestações que na mesma se produzam. Por isso se torna indispensável a todo o militante operário, por mais rudimentares que sejam, possuir conhecimentos de psicologia sem o que não poderá ser um elemento com a capacidade mental suficiente para orientar a acção das massas e muito menos a acção duma multidão organizada, como é uma classe.  (Há que) ... manter uma linha pela qual se consegue assegurar, tanto quanto possível, a uniformidade de acção, ... (de onde) emanará a consciência colectiva.”.