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Alfredo Zarcos (1906-1999)
Funcionário da CUF, jornalista

Alfredo Augusto da Costa Zarcos nasceu em 20 de Agosto de 1906, com dois meses de idade já residia no Barreiro. Veio ao mundo na freguesia das Minas de São Domingos, Mértola, tal como o pai e a mãe. (Seu pai, de nome Alfredo José, era mecânico montador de fábricas de ácidos. A CUF ofereceu-lhe melhores condições que a Empresa Industrial Portuguesa, e ele radicou-se no Barreiro, chegando a chefe de oficina de serralharia. Era muito benquisto por Alfredo da Silva).
O nosso evocado concluiu a escola primária na Esc. Conde Ferreira. Recordava, com prazer, que na 4ª classe, já sentia certa queda para a redacção. O prof. Joaquim França chegou a nomeá-lo responsável por um jornal de parede, onde ele, o Zarquinhos, chegou a apontar que o pátio de recreio era pequeno demais...   
Muito jovem entrou ao serviço da CUF. Manteve-se no grande empório durante 42 anos, primeiro como torneiro mecânico (20 anos), depois escriturário. Residiu até aos 30 anos no Bairro Operário, aposentando-se em 1965.

O jornalista
Aos 29 anos Alfredo Zarcos foi acometido do “bichinho” do jornalismo regionalista. Para sempre… O autodidacta lançou-se em 1936 n´ O Barreiro, então único semanário da vila. Em 1944 veio a lume a sua secção “Coisas da Nossa Terra”. Quando se extinguiu O Barreiro, ele colaborou na Gazeta do Sul e no Diário do Alentejo. O Jornal do Barreiro teve em Zarcos um dos seus fundadores em 1950. (Era o mais velho da equipa de Manuel Figueira).
Participou sempre no JB, com algumas poucas intermitências. Especializou-se, com brilho, em secções periódicas, tais como (de novo) em “Coisas da Nossa Terra”, a seguir “Esta Semana Aconteceu”, “Imagens da Semana”, “Do Desporto e do Cinema”, “Carrussel” e em “Da Cidade Falando”. Apresentou, amiúde, reportagens e entrevistas desportivas que passaram a fazer parte integrante da história do desporto barreirense. Sempre se orgulhou de ter sido o primeiro a entrevistar a camarra Maria de Lourdes Resende (a “Milu”), quando esta era uma ilustre desconhecida.  Tornar-se-ia a Raínha da Rádio Portuguesa. Por regra, os apreciados textos de Zarcos no JB só não surgiam duas vezes por ano, no Verão, quando ele se encontrava de férias fora do Barreiro.
Foi alargando a sua área de acção. Enviou locais para o Diário do Norte (do Porto), foi correspondente no Barreiro do Jornal de Notícias (do Porto), também d´ O Século (1963-1971) e logo a seguir do Diário de Notícias. (Neste,  o seu último artigo foi o alusivo ao falecimento de Augusto Cabrita em Fev. de 1993). Colaborou ainda no Boletim CUF - Informação Interna e em números anuais comemorativos de agremiações locais.
Zarcos sempre escreveu graciosamente. (Só o Diário de Notícias, durante uns tempos, lhe pagou pelos relatos desportivos). Mas o Mundo mudava. Após o 25 de Abril, os diários começaram a dispensar os correspondentes. Quem passa a escrever sobre assuntos locais são jovens com cursos, profissionais.
Quando findou com a escrita,  Zarcos podia orgulhar-se de ser, havia já anos, o decano dos jornalistas em actividade não só no Jornal do Barreiro, como na cidade. Era figura grada em todo o lado, como na casa paterna de quem aqui escreve, onde se realizaram saudosas reuniões de homens da imprensa local de todas as colorações.
Já de idade avançada, Alfredo Zarcos mantinha enorme actividade social. Só força maior o levaria a não estar presente nos relevantes acontecimentos musicais e teatrais, exposições, inaugurações, sessões de homenagem de toda a ordem. Afirmou quase no fim:Antes havia uma mística que nos dominava por completo”. Zarcos chegou a ser preso uma vez pela polícia política. Nunca soube a razão daquele encarceramento. Mas - como ele também confirmou em entrevista a este autor - não se dedicou à política.
Zarcos, grande vulto da pequena crónica de sabor local, deixou um repositório barreirense de mais de seis décadas. No espólio que doou à cidade do Barreiro, encontra-se a colecção dos seus artigos.

O sócio n° 1 do F.C. Barreirense, o associativista
Alfredo Zarcos dedicou-se muito ao Barreirense, tendo sido membro da Assembleia Geral do Clube, como Primeiro Secretário, mais de uma dezena de vezes a partir de 1938. Foi co-fundador da Biblioteca do seu clube, em 1929, à qual muito se dedicou. O seu nome consta como editor de memoráveis números anuais, em Abril, d´ O Barreirense, órgão dos alvi-rubros, de 1944 a 1951 (exceptuando 1945). Usou lá, também, o pseudónimo “rubro-branco”. (Que chegou a ser usado por um amigo do mesmo clube). Quando Zarcos nos deixou para sempre, era já havia anos, o orgulhoso sócio nº 1 do seu clube. Dizia Zarcos que o dia mais feliz da sua vida associativa foi a inauguração do epopeico Ginásio-Sede do Barreirense, em 20-5-1956, em que verteu bastantes lágrimas ... de alegria. Tornou-se, a partir de 1960, por vários anos, redactor d´ O Barreirense, que passara a mensário. E quase até ao fim, em adiantada idade, não faltava a um jogo das primeiras do F.C.B. no seu estádio. O seu fervor pelo Barreirense não o impediu de demonstrar arreigada mística bairrista de que beneficiaram todos os outros clubes e colectividades do Barreiro. Foi muito galardoado ao longo dos anos. Em 1995, para sua surpresa, foi homenageado pelo Luso F.C., clube do qual nunca fora sócio.
Em meados dos anos 40, o Barreirense levou a efeito dois “Concursos de Quadras e Pensamentos” alusivos ao próprio Clube. As peças premiadas foram então reproduzidas profusamente em finas folhas coloridas, distribuídas e vendidas, em tudo o que era lugar, em prol da futura Sede do Clube. (Que algumas de tais folhas, impressas nas oficinas da Gazeta do Sul, Montijo, apresentassem erros de ortografia, a ninguém admirava!..).
Um dos pensamentos galardoados era oriundo de Alfredo Zarcos: “Barreiro! Barreirense! Duas palavras. Dois nomes queridos. Só uma ideia. Uma só finalidade: A nossa terra”. Todas as reflexões premiadas foram reproduzidas também em lindos azulejos postos à venda. Quando da inauguração do Ginásio-Sede uma boa série desses azulejos foram instalados nas paredes da cave-restaurante do edifício. Bons anos mais tarde, quando da renovação daquele lugar (seria lá o primeiro bingo), espíritos ímpios não encontraram melhor solução do que, em acto de vandalismo, destruir todos os azulejos. Alfredo Zarcos observou o resultado daquela acção. Jurou nunca mais visitar a cave do bingo do seu Clube. O que cumpriu.
Afirmou Zarcos em entrevista, que o desporto, em sentido restrito, por todo o lado se  transformava em puro espectáculo, tudo passara a ser dominado pelo poder financeiro. Cada vez tinha maior admiração pelos clubes pequenos… Quanto a colectividades recreativas, o nosso evocado prendeu-se mais aos Penicheiros e aos Franceses. Esteve muito ligado aos Bombeiros e à Misericórdia. Também era grande apreciador de música. Aprendera flautim na escola e aos 12 anos tocava na Banda da CUF, onde actuou 4 anos. Estudou esperanto, como muitos outros no Barreiro.
Ao longo da vida Alfredo Zarcos irradiou simpatia, demonstrou um porte íntegro, em qualquer situação ou época. Um grande exemplo, em suma... Faleceu, com 92 anos, em 3 de Abril de 1999. Escreveu na imprensa quase até ao último alento. O seu derradeiro texto foi inserido no Jornal do Barreiro de 5 de Março, a um mês do seu passamento.               
Citação:   Do artigo “Barreiro, Terra de Trabalho“ que Alfredo Zarcos, no início de sua carreira jornalística, assinou em 1936 n´ O Barreiro,respiga-se: “... Barreiro, terra de labuta permanente, onde os homens são gigantes do trabalho, lutadores da lima, do martelo, da plaina e das alavancas, quais guerreiros medievais em torneios de destreza e força. ... Barreiro, terra de trabalho de um labor intenso, que albergas em teu seio a força, a energia, a inteligência, a vontade indomável traduzidas no trabalho e progresso, divisa eterna a quem serviste de berço”.