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Leonídio Martins (1917-1990)

Tipógrafo, revisor de provas, jornalista

Os Martins constituem bem antiga família camarra. Alguns deles eram conhecidos, noutros tempos, pelo apodo “Nortista”. Não poucos dos Martins labutaram então nos Caminhos de Ferro (CFSS, depois CP). Mas um deles - aqui evocado -  tornou-se figura incontornável da nossa  imprensa barreirense, durante boas décadas.
Leonídio José Martins  nasceu no Barreiro Antigo em 7 de Junho de 1917. Seu pai, José Vicente Martins, ferrador dos caminhos de ferro, era natural do Barreiro. Sua mãe, Gertrudes da Conceição Martins proviera da Aldegalega (depois Montijo). Leonídio acentuava que “não passou da instrução primária”. (Mas escrevia melhor que muitos doutores!). Em Julho de 1962 publicou Leonídio extenso e enternecedor texto de obituário dedicado a seu único professor escolar, Joaquim Vicente França, “probo e grande forjador de caracteres”,  que o havia “moldado”. Prosseguiu: “ Quantos, como nós, relembram os seus conselhos, as suas reprimendas, o “temor” que se apoderavam dos seus alunos ao enfrentarem-no austero, recto, de porte impecável nas lições que ministrava com sábia eloquência”. (Hoje - parece - são mais os professores que têm “temor” dos alunos, embora estes não “ministrem” qualquer “menina dos cinco olhos”...).
Leonídio Martins veio a filiar-se no PCP. Desempenhou o exigente cargo de Provedor da  Misericórdia do Barreiro de 24 de Setembro de 1976 a 31 de Dezembro de 1979. Fechou os olhos para sempre na terra natal em 4 de Dezembro de 1990.
O tipógrafo, o revisor, o jornalista
Leonídio Martins começou, adolescente, a trabalhar numa tipografia que existiu na Rua Miguel Pais, perto das Oficinas Gerais. (Também lá laboraram dois jovens irmãos mais tarde famosos nos meios artísticos como membros de um trio alentejano. Segundo se afirmava, essa tipografia de curta existência terá sido subsidiada pela embaixada alemã).  
Leonídio passou, ainda jovem, a trabalhar em Lisboa nas Oficinas Tipográficas do Diário de Notícias. Passados anos passou a revisor de provas no mesmo DN. Iniciou sua longa actividade de escrita na imprensa aos 18 anos, em O Barreiro (semanário que se extingiu em 1946). Esteve activo no Diário Popular (de 1942 a 1950), sendo o fundador da secção desportiva.  
Em diversos períodos foi assíduo colaborador da imprensa barreirense, em qualquer tema regionalista, tanto no já mencionado O Barreiro (durante uma dezena de anos), como no Jornal do Barreiro. Mas não haja dúvida de que ele se tornou mais conhecido, e muito apreciado, em virtude dos seus entusiásticos e versados artigos de índole desportiva. (Anote-se que praticou futebol nos torneios populares da vila, esteve muito ligado ao Império F. C. B., da Rua Aguiar, do qual foi o último presidente. Pertenceu a comissões bibliotecárias do Barreirense e do Clube 22.).
Devido ao trabalho nocturno teve que fixar residência em Lisboa a partir de 1946, durante 21 anos. Esse tempo - como acentuou - “de exílio” em nada o fez desligar-se da vida barreirense e sua imprensa. Por exemplo, em alguns números d´ O Barreirense, órgão do seu clube de coração, chegou a ser, ao mesmo tempo, redactor, compositor, impressor e editor (!). Tornou-se - não podia deixar de ser - director d´ O Barreirense, então mensário. Aconteceu no período de Fevereiro de 1962 a Fevereiro de 1964, sucedendo a Armando S. Pais.
Por fim, quando O Barreirense interrompera a publicação, Leonídio cooperou com o distinto lusófilo Francisco Horta Raposo, participando na feitura e na escrita do Boletim do Luso F. C.. O desporto, em especial o futebol, e o jornalismo barreirenses, muito, mas mesmo muito, ficaram a dever ao autodidacta Leonídio Martins. Isto também devido aos vastos conhecimentos de que desfrutava entre os jornalistas lisboetas.
Voltemos à actividade do nosso evocado na imprensa da capital. Após o já mencionado Diário Popular, Leonídio difundiu a sua escrita por vários periódicos de Lisboa, em especial desportivos. O repórter de enorme gabarito escreveu nos Sports, mais tarde Mundo Desportivo (durante duas dezenas de anos). Mas artigos seus também surgiram com regularidade, por exemplo, no Stadium, Sul Desportivo, Futebol, Norte Desportivo e Gazeta dos Desportos, hoje todos já desaparecidos. Alguns destes títulos foram como que ícones da imprensa da especialidade.  

Notas finais - Leonídio, que começara como tipógrafo bem nos tempos do chumbo, ainda se lembrava de quando os pombos-correios traziam para o Barreiro, em oito minutos, os resultados dos desafios do F.C.B., desde os estádios lisboetas, e não só. E era capaz de desfiar tantas  memórias dos tempos grandes do seu Barreirensezinho...

Foi bom amigo de quem aqui escreve. Com este, e tantos outros, manteve altas a camaradagem e a amizade que deverão ser apanágio, parte integrante, da actividade jornalística, profissional ou não.  

Um dia, em 1958, Leonídio escreveu uma carta à imprensa do Barreiro, que a trouxe a lume. Lá afirmava estar revoltado com o que sucedera, também a ele, no jogo da segunda-mão da Taça de Portugal de futebol, em Lisboa, entre o Benfica e o Barreirense. Os da vila-operária tinham vencido em casa, no Rossio, o Benfica por 1-0, com um golo de cabeça de José Augusto, na “baliza do jardim”, em 15-5-1958. No domingo seguinte, no Estádio da Luz, o Barreirense defendia-se com denodo, mantendo as redes invioladas. Até que, aos 15 minutos da 2ª parte, o rectângulo foi invadido por adeptos do Benfica. Houve agressões aos atletas barreirenses, como já tinham sido praticadas por jogadores adversários durante o jogo. O árbitro não deu o encontro por terminado. Passou o apito para um colega. O prélio continuou como se nada de especial se tivesse passado... Os do FCB foram-se abaixo perante o escândalo, estava-lhes interdito atingir a final da Taça. E a Federação, claro, homologou os 3-0 finais.

Citamos um pouco do que o Leonídio redigiu sobre aquele jogo: “... deliberei desertar, farto de tanta ignomínia, de tanta afronta aos direitos daqueles que, como o Barreirense, NÃO PODEM, competir com os “grandes” sob pena de se assistir a espectáculos vergonhosos e impróprios de um recinto desportivo como aqueles que se registaram nesse dia.” Já havia escrito: “Tomei a decisâo de me afastar desiludido e indignado por quanto se vem verificando nestes tempos em relação ao Desporto, nomeadamente o futebol, antro de iniquidades e desaforos... Prefiro, de futuro, assistir a jogos de futebol em que não corra o risco de perigar a minha integridade física e, sobretudo, ser forçado à subversâo do meu modo de sentir e interpretar os acontecimentos”. Tratou-se - como o próprio Leonídio expressou - de um “testamento”!  Mas... Decorreram umas tantas semanas, e Leonídio regressou, felizmente, à escrita. O seu “bichinho” do jornalismo desportivo era demasiado possante, mais que toda a afronta recebida...

Ele era um barreirense, daqueles muito orgulhosos do trabalho, do associativismo e, claro, do futebol da sua terra. Movimentava-se sempre em passos pequenos e certos, mas bem determinados, falava de modo fácil e correcto, com brilho nos olhos. Ali, por exemplo num café onde se encontrasse depois do jantar, pegava no telefone do balcão e reportava a partir de poucos rabiscos, (ou mesmo sem eles), olhando para o tecto, sem emendas ou correcções, o jogo a que assistira, ou as últimas do clubismo local, no mais belo português. Numa redacção do outro lado do Tejo, estava alguém estenografando o que ele ia dizendo, que poderia ser lido no jornal da manhã seguinte.

Sabe-se que, para o fim da sua vida, Leonídio Martins manifestara o desejo de receber um qualquer diploma de reconhecimento da parte da sua terra natal. Por todo aquele entusiasmo que lhe devotara, pelo amor que sempre demonstrara por  ela. Mas não viu satisfeito aquele seu forte anseio. Agora, a sua memória mais que merece o presente texto.