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NATÉRCIA COUTO (1924-1999)

Maestrina, compositora, escritora, poetisa

Nathércia Madalena Bela de Almeida Couto foi figura insigne, muito laureada, do seu Lavradio, onde nasceu em 17 de Fevereiro de 1924, de famílias locais tradicionais. (Neste trabalho, o nome próprio Natércia apresentará ortografia actual). A inspiração musical foi-lhe incutida já em criancinha por seu avô, Eduardo José Augusto do Couto, de profissão ferroviário metalúrgico, patriarca da pródiga dinastia Couto de músicos lavradienses. Eduardo também se notabilizou como subchefe (chegou a actuar como chefe) da banda da SFAL (Sociedade Filarmónica Agrícola Lavradiense). O pai de Natércia, Artur Eduardo, tal como o irmão dela, Artur Rafael, foram músicos distintos, este violinista da orquestra da Emissora Nacional. Natércia teve outros parentes que também muito se dedicaram à música.
Ao autor deste texto afirmou Manuel Ventura - lavradiense de gema, desportista, poeta popular, colega de escola da nossa biografada nas aulas da saudosa professora e jornalista Maria Neves da Silveira - que a Naterciazinha na primária já se mostrava vocacionada para a música. E salientava-se como corredora e ... praticante de futebol com os rapazes, para além de ser ardorosa utilizadora de bicicleta. Em suma, era como que uma Maria Rapaz amante da música.
Maestrina, compositora
Por iniciativa de Eduardo do Couto, Natércia foi estudar piano para Lisboa aos 10 anos com um mestre do Conservatório. Bem cedo subiu às cátedras da música (execução ao piano, composição, concertos, e também execução ao violino). Quando menina já actuara em salas de espectáculos de sociedades do concelho natal, tanto no Lavradio, como no Barreiro. Por exemplo no desaparecido Clube 22 de Novembro (ou no Teatro Cine Barreirense, uma vez com a mãe de quem aqui escreve, a pianista Maria de Lourdes da Costa Mano, sob a direcção do maestro Achiles de Almeida).
Com 20 anos, em plena II Grande Guerra, viveu sua estreia como maestrina no Palácio de Cristal do Porto. Em 1946 recebeu bolsa de estudo do governo espanhol para frequentar a Universidade de Santander. Aperfeiçoou-se no Conservatório de Madrid e em Salzburgo. Em 1948 cursou na orquestra do Conservatório de Paris, obtendo o primeiro prémio de regência que lhe valeu outra bolsa de estudo, desta vez concedida pelo Governo Francês. Diplomou-se em Filosofia e Letras pela Faculdade de Madrid.
Em 1957 regeu no Cinema Império, da capital, a Orquestra Filarmónica de Lisboa. Também  dirigiu a Orquestra desta cidade, no Pavilhão dos Desportos do Porto, e ainda a Orquestra Sinfónica Nacional, no Pavilhão dos Desportos de Lisboa.
A grande apresentação de Natércia no concelho natal sucedeu em Abril de 1958 no Ginásio-Sede do F. C. Barreirense, no dia do 47° aniversário deste Clube, em organização da Câmara do Barreiro de colaboração com a Emissora Nacional. A maestrina regeu a Orquestra Sinfónica da Emissora. Casa literalmente cheia, também com muitos conterrâneos lavradienses, que nunca puderam olvidar tal espectáculo. Entre artistas que também se apresentaram naquela noite salientaram-se os cantores barreirenses Maria de Lourdes Resende, que foi Raínha da Rádio nacional, e Plínio Sérgio (primo de quem assina este texto), que para muitos era então considerado dos melhores, senão o melhor intérprete do fado de Coimbra. Tudo um sucesso tremendo! Após o espectáculo, a Direcção do F. C. Barreirense descerrou uma lápide comemorativa no hall de entrada daquele epopeico edifício, com o teor: “D. Nathércia Couto, Maestrina Barreirense, 11-4-958”. Parece que alguns dos presentes, e não só, teriam preferido que na pedra constasse “Maestrina Lavradiense”. Mas enfim...
Em Roma, a nossa biografada chegou a constituir uma orquestra que percorreu vários países. Passou boas temporadas no Brasil, onde também exerceu a batuta. Anotámos, em especial a partir da “Grande Enciclopédia”, uma lista de obras musicais de que ela foi compositora: “Sonatina Romântica”, para violino e piano; “Duas Canções com Palavras de Lamartine”, para soprano; “Sete Melodias para Soprano”, “Duas peças para Violino”, “Sinfonia n° 1 (Ao Amor)” “Suíte Lusíada n° 5” (estreada por ela em 1967 na Estufa Fria de Lisboa); e os bailados “White Rose” e “A Scheherazade Negra”.
Natércia Couto foi detentora de várias condecorações. Sagrou-se Comendadora da Soberana Ordem dos Cavaleiros de São Paulo Apóstolo (a que voltaremos a aludir), foi franciscana da Arquiconfraria do Cordão de S. Francisco de Assis, membro da Academia Heráldica de São Paulo, Brasil. Regressou a Portugal quando abrandou sua intensidade na música. Natércia passou a executar funções na Secção Cultural do Ministério dos Negócios Estrangeiros. Em 1980, a SFAL - tão querida de Natércia - descerrou uma lápide comemorativa com os dizeres: “Homenagem da SFAL à distinta maestrina Natércia Couto (Natural do Lavradio) 11-12-1980”. Nesta colectividade existe uma Sala Natércia Couto, tendo sido constituída uma Escola de Música com seu nome. A Câmara do Barreiro também homenageou Natércia, mas somente em 1989. A nossa biografada continuou a residir no bairro de Belém, Lisboa. Não se consorciou. Faleceu na capital com 75 anos, em 11 de Junho de 1999. Seus restos mortais repousam no cemitério da Ajuda.

A escritora, a poetisa, a autora de ensaios filosóficos        
Nos finais de 1945, vozes da crítica, expontâneas, manifestaram-se da melhor maneira, saudando o primeiro livro de uma lavradiense de apenas 21 anos. Sucedera surpreendente estreia literária: a de Natércia Couto. Através de uma série de contos lindos e suaves ela deu à estampa os seus “Prelúdios”, obra saída dos prelos da Empresa Nacional de Publicidade. Era opinião geral, a debutante manifestara-se com suprema perfeição.
O escritor Dr. Magnus Bergström assinou interessante prefácio para as primícias literárias daquela senhorinha. Sabia-se que Natércia surpreendera, nos seus começos, na sublime arte da música. Agora, na literatura, do mesmo modo recebia um coro de incitamentos e estímulos. Com tão poucas primaveras de vida, a jovem, que aos sete anos vira seu coração esfacelado quando do falecimento da mãe, também conseguira ânimo para compor tais prosas. Ainda pequena Mulher (com maíscula) da música clássica, acabara de compor uma brilhante “sinfonia de abertura” nas letras. Opinou-se que as senhoras, em especial, encontravam nos “Prelúdios” como que pedaços da própria alma.
Explicitamos os títulos de outros livros da autoria de Natércia Couto de que sabemos da existência: “Sonho nos Lábios”, “Poemas de Amor”, “Mundo Falo-te”, “O Príncipe do Amor”, “Linda e o Amor”, “Jimena - Paixão e Turismo em Espanha”, “A Paixão de Brasília”. Também elaborou, pelo menos, uma peça de teatro: “Rosas de Santa Isabel de Portugal”.
A memória de Natércia Couto tem encontrado no lavradiense João Saraiva, da SFAL, um excelente cultor. Agora uma anotação para sorrir. Em Julho de 2002, liam-se parangonas na imprensa em referência a uma “ilustre desconhecida” maestrina, dada como portuguesa, que já granjeara prestígio em alguns países estrangeiros. De seu nome Lígia Amadio, nascera em Portugal, mas criara-se no Brasil, já vencera o famoso Concurso Internacional de Maestros do Japão. Em 2002 visitou Portugal dirigindo a orquestra da Moldávia, participando também no Festival de Coimbra. Pois jornais portugueses anunciaram Lígia Amadio como a “primeira maestrina lusa”... Claro que logo vozes discordantes, protestos se levantaram. A primeira maestrina nacional foi, sim, Natércia Couto, “o seu a seu dono!..”. Parece terem surgido algumas emendas. Há que respeitar a memória da tão notável lavradiense...
E aproximamo-nos do fim destas notas sobre Natércia Couto que, entre nós, foi mulher sem par da música clássica universal, raínha da batuta. Que também tanto cultivou a literatura, uma princesa da pena... Ela queria como que abarcar, abraçar o mundo com a música e o pensamento. 

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DOIS  LIVROS  DE  NATÉRCIA
I - Sonho nos Lábios (prosas, 1958)
Este é um livro que apelidamos de exultante. A autora dedica-o “A meu pai, o grande Amigo e Protector das minhas carreiras, literária e artística”. No volume também consta dedicatória “Aos Exmos. Senhores Dona Isabel Franco e Dom Nicolas Franco, Ilustres ex-Embaixadores de Espanha em Portugal. Com a minha amizade e gratidão”.    
As 25 prosas que lá constam - sem prefácio, editado pela Coimbra Editora - foram redigidas na década de cinquenta, não só em Portugal, como em Roma (1951), no Rio de Janeiro (1953) e em Londres (1954). Escolhemos para aqui duas prosas das mais curtas, do total de 25:

PRECE : (Pão Nosso de Agora)
Tende a fé de Deus.  (S. Marcos, Xl)
Ó Tudo que estás no Antes !  Bendita seja a essência que te envolve. Orvalha-nos com gotas de luz, assim na Terra como nos Céus, e não nos faltes com o Pão Nosso de Agora.
Não nos faças fazer dívidas que ateiem a vaidade do próximo, nem empréstimos para que a ira do próximo se desvaneça.
Livra-nos da tentação e do contacto social quando ele não seja são. Abre-nos a janela do Bem, para que a Paz entre nas casas de todos e a rua não seja leito de miseráveis. Se assim o quiseres, ó Tudo, o homem não será um vão aonde o ócio se encoste, mas, sim, um fogo a arder pela Verdade e pela Justiça, que muitos capricham ainda, ferozmente, em não as querer reconhecer. Será então glorificado, numa só Ara, o altar místico do Antes, pelos sinos de oiro do Seja, que são a voz da luz astral. E do coração de todos sairá, enfim, em uníssono, o cântico universal da Alegria em louvor do Homem, e de Ti, ó Deus, e meu único Senhor !

MARIA DEL MAR
A tua fé te salvou.  (S. Lucas, VII)
Na minúscula moldura, Maria, Maria del Mar, parecia o Universo. Ele beijava-lhe, em cada noite, em cada dia, a fronte, mas sentia na boca o frio da morte. E dizia-lhe:
- Maria, Maria del Mar, porque foge tão depressa de mim a vida, e fico a tremer, com mais frio, quando apaixonado, me inclino sobre a tua face linda?
-  O mar ! o mar ! - ouviu dizer.
Ele deixou tudo e correu para o mar. Andou, sobre as ondas, dias e noites, e no fim Maria, esperava-o ... no templo.
O poeta ajoelhou para lhe beijar a mão. E sentiu na boca o fogo da vida.
-  O fogo da vida ? Ai!...
Maria, Maria del Mar, era só a imagem, a imagem de um altar.
Londres - 1954

II - Linda e o Amor (conto filosófico enquadrando versos, 1966)
Este tão belo texto ocorreu à publicista em 1962/63. Foi editado, pouco anos depois, na Sociedade Gráfica Batalha, à memória de Eduardo do Couto, avô de Natércia. Como Comendadora da Soberana Ordem dos Cavaleiros de São Paulo Apóstolo, dedicou o volume a Sua Santidade o Soberano Pontífice Paulo VI. “Linda e o Amor (da solidão ao céu, um conto de serão)” apresenta capa da pintora brasileira Mirta Rosato, simbolizando Adão e Eva. O prefácio foi escrito por Dulce Salles da Cunha Braga, Vereadora da Câmara Municipal de São Paulo, que finalizou o seu preâmbulo com as palavras: “... Você, Nathércia Couto, grande escritora, grande mulher, sem perceber, deu de você mesma a sua grande definição - um pensamento tangido pela Caridade e pelo Bem - a gravitar no globo, com o selo da Verdade, herdado legitimamente do Além...” 
Pergunta-se: Mas afinal o que é filosofia? Seguem-se excertos da obra “Linda e o Amor”, em prosa e em estrofes:
Extracto da página 15: ...
“Por favor, Avô. Fala-me sobre algo diferente. Hoje não quero ouvir histórias de Princesas nem de bobos. Avô ... Que é Filosofia?
-Onde desencantou o termo, Nené?
-Num livro da tua biblioteca.
Olhou-me em silêncio. Insisti.
-Que é Filosofia, hem?
Não sorriu. Uma nuvem toldou a pureza do seu olhar.
-Quando um homem aflito implora pão, dão-lhe pedra; quando cada indivíduo, estudioso missionário, pede uma afirmação, respondem-lhe com um “talvez” - disse como num murmúrio.
Aguardei o prosseguimento para entender, aprender, o que tanto queria saber: O que era FILOSOFIA. Desde que me conheço, o “mas e o talvez”, sempre me deixaram preocupada e inquieta”...

 
 

Que é afinal, um corpo
Quando  morre o ser?
Apenas simples uniforme
Descendo à terra que dorme
Esquecida da luz, irmã do verme,
A morte não pede adeus
Porque  a alma é dos céus.
É a vida sòmente uma paisagem
Que será bela ou horrenda miragem
Segundo a alma de quem a viveu.
Por isso vôvô não morreu.
Raio de sol da humanidade,
Servo missionário da bondade
Adormeceu em paz durante a viagem
Que oferece ao ser dois destinos:
O de viver e morrer com o coração
Puro, dilatado de piedade
Ou viver e morrer como um vilão
Condenado mil vezes a nascer.
Sim, sei que vôvô não voltará
E no ignoto me esperará,
Qualquer noite ou qualquer dia.
E abrindo aos meus olhos franciscanos
Seu sorriso todo sonho e poesia,
Perguntará ainda divertido:

Então, Nenê? Já sabe o que é FILOSOFIA?