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MARIA ESTHER DA COSTA FIGUEIRA (1890-1970)

Benemérita,  jornalista, poetisa

Maria Esther Mongiardim da Costa Figueira nasceu na Rua Miguel Pais em 27 de Setembro       de 1890, de onde saiu em garotinha para a Quinta dos Casquilhos (Alto da Verderena). Do lado materno, seus ascendentes pertenceram a linhas barreirenses bem provectas. Um deles, José Maria da Costa, foi vulto como que lendário dos Caminhos de Ferro. Os pais de Maria Esther passaram para a Quinta dos Silveiros (Alto do Seixalinho), que fora propriedade dos avôs maternos de nossa biografada, Luiz da Costa e Maria Joaquina. Este Luiz foi proprietário de bom número de fragatas do estuário (sec. XIX).
Em jovem, Maria Esther era bem desinibida nas caçadas às perdizes. E foi precisamente numa dessas caçadas que travou conhecimento com o futuro esposo, alentejano, Manuel da Silva Figueira, que viria a ser funcionário ferroviário no Barreiro. Ela casou-se com apenas vinte anos de idade. Após venda da Quinta dos Silveiros, este ramo dos Costas rumou para a Rua Vasco da Gama 10, onde os rebentos de Maria Esther viveram a adolescência.
Já entrada na idade, Maria Esther passou a residir em Azeitão. (Aí tornou-se amiga, logicamente, com alguns de seus filhos, do poeta Sebastião da Gama, natural de Vila Nogueira). Esta senhora de notáveis virtudes, sempre pronta a minorar o sofrimento do próximo, fechou os olhos para sempre na Casa de Saúde das Amoreiras, Lisboa, em 6 de Fevereiro de 1970.
A descendência
Maria Esther foi mãe de cinco rapazes e uma menina .(Nem todos receberam o apelido de Mongiardim, denominação de origem genovesa, que por cá chegou no sec. XVI): António (Funcionário superior do Ministério das Corporações; João Manuel (Licenciado do ISCEF, funcionário da Comissão Reguladora do Comércio do Algodão em Rama, Professor do Instituto Superior Económico e Social de Évora, jornalista e autor de livros de relevo); Manuel (Também jornalista de intenso gabarito, fundador do “Jornal do Barreiro”, Presidente da Câmara do Barreiro, quando da formação da RTP dirigiu o serviço de informação, chefe de redacção do diário “O Século”, depois seu director, por fim Director-Geral da Comunicação Social); José João (funcionário da Câmara do Barreiro, Presidente da Câmara de Benguela (Angola), director da empresa Lupral); Eduardo José (Agente técnico de engenharia, empregado da Companhia Mineira do Lobito, quando da independência de Angola emigrou para o Brasil, onde faleceu); Maria de Lourdes, casou com Lourenço Monteiro, viveu em Angola, onde  terminou a sua existência. Maria Esther, na sua amargura com o falecimento da única filha, dedicou à sua Milu um lindíssimo poema.    
Dispensário anti-Tuberculoso
O Barreiro viveu tempos de miséria e de doença em especial nos anos 20 e 30, princípio dos 40. Muitos trabalhadores demandavam, na maior carência, a vila-operária, com o objectivo de facultar os seus serviços às fábricas da CUF, ou então, por exemplo, às fábricas corticeiras e às cordoarias. No caso de aldeias, como a de S. Miguel da Acha (Beira Baixa), afirma-se que praticamente metade da sua população transitou para o Barreiro a fim de tentar melhorar o nível de vida.
Maria Esther foi  um dos munícipes que, desde sempre, mais acicatou o meio social, já desde a I República. Foi ela a tesoureira e a alma da primeira Comissão de Caridade (Senhoras) do Barreiro, que começou por se reunir num café da Rua Aguiar gerido pelo filantropo popular Mário Rodrigues “Lá Vai”. Com o seu apoio surgiu a primeira Sopa dos Pobres da vila em 1930. Maria Esther foi, sem qualquer dúvida, um munícipe de grande coração que, desde sempre, prestou  notável contributo aos mais necessitados.  
Agora no respeitante às deficiências pulmonares que quantas vezes resultavam, naqueles tempos, em tísica, mortal. Maria Esther C. Figueira foi a Presidente da Comissão Executiva para o arranque do Dispensário anti-Tuberculoso (1933) e, sem dúvida, quem mais se destacou naquele período desde o início da obra até à conclusão do edifício (em 1934, que ainda hoje existe, na depois denominada Rua Henrique Galvão). O primeiro director clínico foi o dr. Manuel Pacheco Nobre (1884-1961, que daria o nome a uma das artérias mais importantes do Barreiro, a antiga Rua Brás). No Dispensário, a nossa evocada sempre procurou ajudar o antigo dirigente sindical anarquista António José Piloto, com história de enclausuramento político na I República. Durante anos, Maria Esther assumiu o cargo de Zeladora-Chefe da A.N.T., com o maior destaque.
Devido à eminente dedicação e carinho postos na luta contra a terrível tuberculose, enfermidade tão contagiosa, um numeroso grupo de senhoras barreirenses prestaram homenagem a Maria Esther da Costa Figueira, oferecendo-lhe um belo pergaminho (que a família preserva com o maior orgulho). Citam-se aqui apenas algumas passagens: “... admiradoras das excelsas qualidades de Vossa Excelência, conhecedoras de quanto se deve à vossa inteligente acção, ao vosso ingente esforço, à vossa vontade e energia, que tanto contribuíram para que o Dispensário fosse um facto, pelo menos para que esse facto se viesse a dar muito mais cedo que todos esperávamos ...”.  
Mas a Comissão de Caridade e o Dispensário não foram suficientes para Maria Esther. Também ocupou tarefas relevantes no Asilo D. Pedro V.  E foi uma apaixonada da cultura. Fixava aos filhos execuções de trabalhos literários que muito os cultivou, que muito os incentivou a atingir posições de relevo em suas profissões.
Jornalista e poetisa
O edifício onde a família Costa Figueira residiu, na Rua Vasco da Gama 10, chegou a ser, na década de 30, a redacção e a administração do semanário “O Barreiro”. Luiz Costa, um dos irmãos de nossa evocada assumiu o cargo de editor desse órgão. Nele também se lançou o futuro brilhante jornalista João Manuel Costa Figueira. Assinale-se ainda que em barracão sito no quintal daquela casa da Rua Vasco da Gama, se localizou, em 1 de Maio de 1938, a primeira sede (provisória) da tão saudosa Associação Académica do Barreiro. O seu primeiro presidente foi precisamente o estudante João Manuel, já referido.
Maria Esther da Costa Figueira foi a segunda senhora do concelho do Barreiro a dedicar-se, com apego, ao jornalismo. (A primeira jornalista chamou-se Maria Neves da Silveira (1880-1954, natural do Lavradio). Muitos artigos originários da pena de Maria Esther vieram a lume com o seu pseudónimo de Tércia em “O Barreiro”, mas também em publicações não-barreirenses com outros nomes adaptados.
Em espólio herdado encontrámos, entre material alusivo a Maria Esther, bastas lindas poesias, assinaladas como “inéditas” e assinadas com o pseudónimo Nat Catherine, a sua grande maioria composta em Lisboa, algumas no Barreiro, todas datadas de 1969.
Assim escreveu Manuel Cabanas sobre Maria Esther
Manuel Cabanas, no “Jornal do Barreiro” de 13-4-1972, escreveu – e de que maneira... -  a favor de Maria Esther, que bem conheceu durante os anos 30 e 40, enaltecendo ao máximo o modo como ela lutara pela causa dos humildes e de todos os que sofriam. Reproduz-se:
... (eu) faria um pedido que considero justo: dar a uma nova rua do Barreiro, o nome dessa extraordinária e grande benemérita que foi D. Ester Monjardim da Costa Figueira. Eu fiz, durante 16 anos, parte, com essa bondosa e activa Senhora, da Comissão Nacional dos Tuberculosos, no Barreiro, como seu secretário, e muitas vezes a acompanhei, e portanto, sei bem, como ela se debatia por toda a parte.
Foi enorme a sua influência nas décadas 20 e 30, na defesa dos interesses desta terra, que era a sua, e que adorava. Se não fora a sua assombrosa actividade e a sua inquebrantável vontade, o Barreiro não teria hoje o seu Dispensário Anti-tuberculoso. A ela se deve, quase exclusivamente, esta meritória obra de assistência social.
Não ficaria mal ao seu jornal, sr. Director, se tomasse a iniciativa de ser o intérprete junto da Câmara Municipal, da ideia de ser prestada homenagem póstuma à memória da prestimosa D. Ester da Costa Figueira, dando o seu nome a uma rua da sua terra”.