Barreiro Imagens

ArtBarreiro.com

Links Complementares

Contactos

 

Joaquim Alfredo Gallis
José Picoito
Miguel Correia
Alfredo Figueiras
Alfredo Zarcos
Domingos Silva
José Augusto Pimenta
Leonídio Martins
Nathércia Couto
M. Esther da Costa Figueira
A. César de Vasconcelos
Mário R. Solano "Lá-Vai"

   
 

AUGUSTO CÉSAR DE VASCONCELOS   

Este evocado nasceu em 23 de Dezembro de 1867 em Palhais, freguesia do concelho do Barreiro. Seu pai, o feitor Augusto Pereira de Vasconcellos, natural de Lisboa, foi funcionário de relevo dos Caminhos de Ferro.
(O assento do nascimento de Augusto César, tal como os de seus irmãos Guilherme Augusto e António Maria, estão conservados no Arquivo Distrital de Setúbal. Os três são naturais de Palhais e aqui baptizados. O assento de Guilherme, nascido em 1861, comprova que os progenitores residiam na Quinta da Estalagem, espaço ainda hoje tão relevante. No assento do irmão António, nascido em 1863, consta que o avô paterno dos irmãos se chamou Manuel Barreto de Vasconcellos e era natural da “Bahía” (Brasil).

Imprensa - Teatro

Para este primeiro grupo de “Vinculados ao Barreiro” foram escolhidos, em especial, vultos que se evidenciaram no capítulo da imprensa local. Ora Augusto C. de Vasconcelos revelou-se - com 25 anos  – o editor do primeiro jornal publicado na vila, “O Sul do Tejo”, tipografado em Setúbal. O primeiro número foi divulgado em 19 de Nov. de 1893, acabando a gazeta em 29 de Abril de 1894, com o número 24. O redactor principal chamou-se José Maria Dupont de Sousa, articulista, escritor, dramaturgo, bem conhecido a nível nacional, que durante alguns anos foi empregado de escritório no Barreiro.             
Em “O Sul do Tejo”, os escritos de carácter autárquico não aparecem, em geral, assinados, mas Augusto César foi, sem dúvida, autor de boa parte deles. A redacção do semanário esteve localizada, de início, na Rua da Amoreira, transversal à Rua Aguiar, tendo passado depois para a Praça de Santa Cruz. Embora se anunciasse independente, o periódico tendia para o Partido Regenerador, a agremiação política de maior relevo nas últimas décadas da Monarquia. 
O pai do nosso evocado já esteve muito ligado ao teatro da vila como actor amador (e ensaiador) da Soc. Marcial Capricho Barreirense, que existiu em 1° andar de prédio da Rua Marquês de Pombal. Neste aspecto, Augusto César de Vasconcelos seguiu as peugadas do pai, dedicando-se muito, na juventude, ao teatro amador, em especial, no Grupo Dramático Barreirense. Mas cedo se iria devotar, de alma e coração, à prática do Bem.    

Profissão

Com estudos secundários, Augusto C. de Vasconcelos ocupou o posto de secretário (em escritório na Praça de Santa Cruz) de extensa série de Administradores do Concelho (cerca de 30,     designados pelos Governos). E isto de 1889 até 1924, portanto durante nada menos de três décadas e meia (!), até à aposentação. O seu superior mais conhecido terá sido Joaquim Alfredo Gallis (1859-1910), talentoso jornalista e romancista lisboeta. No Arquivo Municipal do Barreiro consta o auto de posse de J. A. Gallis, assinado em 1 de Fev. de 1901, e ali homologado pelo secretário Augusto César de Vasconcelos. Quando do lançamento, em 1904, da primeira pedra para a construção dos novos Paços do Concelho, ainda J. A. Gallis ocupava o cargo de Administrador local. (Este posto concelhio tinha algumas atribuições semelhantes às do cargo criado posteriormente de Governador Civil, a nível distrital).
Após o 5 de Outubro de 1910, Augusto de Vasconcelos não renegou as suas convicções monárquicas. Porém, em vista do seu bom nome, da sua excelente reputação, passou incólume – ao contrário do que sucedeu a muitos outros – pela transição da Monarquia para a República, ou seja, não sofreu “saneamento”. Segundo nos foi agora reconfirmado por nosso Arquivo Municipal, o primeiro Administrador local do regime republicano, Manuel Marques de Oliveira, foi empossado em 17 de Outubro de 1910, tendo o ... monárquico Augusto César de Vasconcelos  sido reconduzido ao posto de secretário que ocupava antes da revolução. 

Benemerência

No tocante à benemerência, Augusto de Vasconcelos começou por ser um dos presidentes da Sociedade Humanitária do Barreiro, existente desde 1864, dissolvida em 1941, que chegou a contar muitas centenas de sócios. As assembleias gerais tinham lugar nas instalações da Escola Conde Ferreira. Durante anos, a Direcção desta beneficiente associação reunia-se na casa do farmacêutico João Dias Correia Pimenta, que foi o derradeiro Presidente do Município na Monarquia.
Augusto de Vasconcelos mostrou-se uma das figuras mais relevantes de sempre do Asilo D. Pedro V. Diga-se que, em 1915, esta nobre instituição estava de tal forma abandonada, que os jovens semi-internos e alunos não somavam 30. Foi nomeada uma comissão administrativa de que fez parte Augusto César. Evitou-se encorporar o estabelecimento na Assistência Pública. O nosso evocado cedo foi nomeado Presidente da Direcção, cargo que exerceu durante anos. Já a partir de 1919, a Instituição acolhia três dezenas de asilados e oito dezenas de pensionistas.
Agora no tocante à Misericórdia... No princípio do sec. XX, esta casa encontrava-se na penúria.  A instauração da República não lhe trouxe benefícios, até que Augusto César de Vasconcelos surgiu como Provedor. A vetusta Casa começou a deixar o letargo. Ele escolheu para as suas direcções mesários dos não só “políticos faladores”, mas sim de homens empreendedores, como ele. Apareceu finalmente – o que custa a acreditar - o Posto de Socorros municipal. A figura popular Mário Solano “Lá-Vai” também se revelou colaborador pleno de iniciativa, por exemplo na ainda lembrada aquisição de uma digna carreta funerária e à frente de comissões para festejos destinados à angariação de fundos. O industrial Alfredo da Silva também contribuiu com um donativo  para os melhoramentos. 
Augusto César de Vasconcelos, durante a sua provedoria – citamos agora de um livro de A.S. Pais -  “volta a subsidiar   ... pessoas inválidas e pobres, promove serviço de transporte gratuito para os hospitais civis de Lisboa, ... aumenta a sua lista de subscritores, contrata um clínico e pessoal necessário..., introduz melhorias no edifício e anexos, ... culmina a sua renovação em 13 de Novembro de 1927, com a inauguração festiva do seu pequeno hospital com duas enfermarias (uma para cada sexo), sala de pequena cirurgia e posto de socorros... foram dados estatutos a esta Misericórdia”.  
Este verdadeiro Homem de Bem já não assistiu à inauguração oficial do Hospital da Misericórdia em 13 de Nov. de 1927, pois falecera três meses antes, em 6 de Agosto de 1927, não completara ainda os 60 anos.                          
O falecimento de Augusto César de Vasconcelos na imprensa

Não terá sido Augusto César o vulto mais insigne vindo a este mundo nos últimos séculos em Palhais? Formulamos a pergunta, em particular, aos naturais de Palhais, aos palhaenses... Foi-nos reconfirmado (em 2009) que o nome de Augusto César de Vasconcelos não pertence à toponímia da histórica freguesia... O que (cremos que um dia) será alterado...
Transcrevemos (na ortografia de então) algumas linhas da local, não assinada, dada à estampa, com foto, no “Eco do Barreiro” quando a morte arrebatou este homem de tantas acções humanitárias: “Augusto Cezar de Vasconcelos desde moço que empregava quasi todas as horas que lhe sobravam da sua vida oficial em trabalhos de beneficência... não fazia alarde do bem que ia praticando ... (com) dezenas e dezenas de papeis ... a prenderem-lhe a vida, colado áqueles assuntos que traduziam benefícios para tanta gente... E o afan, melhor a fé com que ele se entregava áqueles trabalhos... Já  ... esta terrível doença que o levou á morte, o tomava violentamente, e ele a trabalhar sempre na sua obra de bem-fazer, a pensar sempre no hospital, na Misericordia, e a ensinar aos outros, que ficavam na vida, aquilo que ele sabia e que constituia a mola vital daquela instituição. ...
Quanto lhe deve o Asilo D. Pedro V... Dedicadíssimo ás obras de beneficência a que metia ombros, ... ele destacava-se alevantadamente dentre todos aqueles que com ele trabalhavam para o Asilo. Na Direcção da Associação de Socorros Mútuos ... ele foi um trabalhador incansável, o amparo, muitas vezes, dessa bela instituição de previdência.
Mas onde a sua acção mais se destacou foi, sem dúvida, dentro da Misericordia da Vila do Barreiro, de que era provedor ha já bastantes anos... foi especialmente a ele que se deve a existência dum belo posto de socorros e dum modesto mas bom hospital, no centro desta vila. Não fora o seu esforço, formidável de vontade e de trabalho, acompanhado da boa vontade de dois ou três homens, e o Barreiro teria – não reste disto dúvidas de ninguém – junto da sua praça principal, um montão de pedraria e de caliça, em vez dum hospital, porque aquela casaria estava, aqui ha tempos, a cair e ninguem mais lhe deitava mão.
Augusto de Vasconcelos foi um homem nobilissimo, um chefe de familia honesto e bom, na mais alevantada concepção das expressões, e um cidadão digno de respeito e da admiração dos seus semelhantes ... Era secretário aposentado da Administração do Concelho do Barreiro, logar que desempenhou, com muita competência e probidade, durante 35 anos...”. 

XXXXX

Augusto César de Vasconcelos foi progenitor de três filhas e de um filho, nascidos na vila sede do concelho. O varão chamou-se Francisco Augusto Nunes de Vasconcelos (1896-1966). Depois de completar o ensino liceal em Lisboa, fez carreira no Banco de Portugal onde se tornou funcionário superior.
Homem dos primórdios do desporto-rei na vila, Francisco de Vasconcelos foi figura do maior relevo do clube desportivo mais representativo do Barreiro. Presidiu à Assembleia Geral, dita de 11-4-1911, em que - extinto o Sport Recreativo Operário Barreirense - nasceu a nova agremiação com o nome (por ele sugerido) de Football Club Barreirense. Francisco de Vasconcelos foi então eleito o primeiro Presidente da Direcção do F.C.B.  
O novo clube nasceu, oficialmente, em casinha  com o n° 139 na (ladeira da) Rua Almirante Reis (depois conhecida como “Ladeira do Teatro-Cine”), onde durante mais de três décadas esteve exposta uma lápide alusiva à fundação do F.C.B. Tal pedra, assinalando momento tão histórico do desporto do Barreiro, levou descaminho. A lápide evocativa desapareceu, do modo mais ímpio, na segunda metade dos anos 70, não tendo sido apuradas responsabilidades, nem por parte do F.C. Barreirense, nem das autoridades municipais.