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Mário R. Solano "Lá-Vai"

 

A Casa Azul

Sabe-se que ao longo da vida ele ajudou famílias muito necessitadas, como um casal da Rua Aguiar com grande prole. Por vezes, quando na rua passavam determinadas senhoras, algumas “bem”, o “Lá-Vai” largava o balcão e vinha oferecer-lhes um “miminho” – podia ser um bolito – aspirando a uns dedos de conversa. Quanto a machões de influência no Barreiro a coisa era diferente. Alguns procuravam não passar à porta da Casa Azul, preferiam atravessar o Parque. A razão? Se o Mário Solano os topasse era quase certo que ele os viesse interpelar para meter “cunhas”, geralmente em casos de bem-fazer imperiosos para o irrequieto lojista. (A propósito, ou talvez não: Quem escreve estas linhas ia à loja do “Lá-Vai” comprar uma tablete “Tágides”, ao longo dos anos 50, sempre que o F.C. Barreirense ganhava um jogo na I Divisão... E como o F.C.B. costumava saiar vitorioso em apreciado número de encontros por época nos torneios máximos futebolísticos, íamos satisfazendo esses nossos desejos de nos deliciarmos, de modo duplo, com aqueles chocolates fabricados no Barreiro).

Iniciador das Festas do Asilo D. Pedro V

É surpreendente o que ainda hoje se relembra sobre a relação de Mário Solano com o Asilo D. Pedro V. Em especial após os seus dissabores e azares familiares, o pequeno pasteleiro “Lá-Vai” voltou-se, de alma e coração, para aquele estabelecimento de benemerência. Tornou-se o iniciador das Festas do Asilo, para as quais nunca lhe faltou pródiga imaginação. Aliás, uma grande parte das iniciativas de M. Solano tinham o fito de angariar fundos em prol do Asilo, que ele fazia chegar às Direcções. Em determinadas ocasiões, ele ia mesmo entregar coisas directamente às crianças. Os irmãos Conceição, nascidos em 1918 e 1921, recordaram-nos os presentes provenientes das quermesses do “Lá-Vai” que eles recebiam com prazer quando semi-internados do Asilo D. Pedro V, portanto já em meados dos anos 20 (!).  
O “Lá-Vai” e seus colaboradores, quase todos gente simples do Povo (!), também organizaram, lá nos anos 40, as Marchas dos Balões, a favor do Asilo D. Pedro V e integradas nas Festas do Barreiro. Falámos com o octagenário José João dos Santos “Pedreiro”, conceituado artífice, que nos relatou aquelas festas quase tintim-por-tintim. No ano inicial, o primeiro prémio foi ganho pelo Agostinho “das Bicicletas”. Concorrera com um balão-esfera armilar, onde ia pendurada uma pomba branca com o dístico “Depois do vendaval vem a bonança”. Apareceram por lá um ou outro gozão, mas sem consequências de maior.
A desgraça – segundo José João “Pedreiro” - sucedeu no segundo concurso dos balões, 1948. (Um dos membros do júri foi o futuro arquitecto Joaquim Padrão). O “Lá-Vai” e amigos até montaram um estrado para exibição de ranchos. Então, lá no estrado, o Nicolau “Bacalhuça” (moço de fretes de carro de mão, tal como o irmão “Zaranza”) meteu-se com o “Lá-Vai”, entraram em vias de facto. Já lá pairava uma chusma de provocadores, que espatifaram coisas, incluindo lindos balões, houve pancadaria de meia noite entre organizadores e desordeiros. As forças policiais fizeram “colheita”... O “Lá-Vai”, o “Bacalhuça” e mais uns tantos, recolheram ao “50”, isto é, ao “cinquenta”, ou seja, ao xelindró da Praça Velha, a ver o sol aos quadradinhos, com a loja da Matilde “Ti´ Mòquinhas” do outro lado da largo. 
Devido àquele doloroso desfecho da Marcha dos Balões ficou interdita a Mário Solano a efectivação de qualquer outra iniciativa no Largo da Sr.ª do Rosário. Tal não descoroçoou o “Lá-Vai”, que – com os amigos – ainda chegou a empreender uma festa popular no Parque a favor do Asilo, semanas antes das festas oficiais.
Aconteceu que a partir do princípio dos anos 50 o “Lá-Vai” passou a criticar acerbamente as direcções do Asilo, embora mantendo-se sócio. (Escreveu Armando S. Pais em obra atrás referida que a administração do Asilo “se tornou preocupação absorvente do “Lá-Vai”... a tal ponto que provocou conflitos com os seus directores, por chegar a levantar observações que se verificaram inconsistentes, o que levou a sofrer a irradiação...”).
Em 1954 atingiu-se o clímax, quando Mário Solano não esteve com meias medidas e descambou mesmo: escreveu as suas censuras em grandes folhas e pendurou-as na montra da da sua Casa Azul para leitura dos curiosos. A Direcção do Asilo convocou uma Assembleia Geral Extraordinária para 2-8-1954, “a fim de ser lavrado um processo de inquérito a um sócio”. (Os bons tempos com o “Lá-Vai” tinham-se diluído...).
Na Assembleia estiveram presentes vinte consócios, incluído o inquirido. Concluiu-se que a Direcção se sentia molestada por acções de Mário Solano que era muito dado a imiscuir-se em assuntos que não lhe diziam respeito, provocando “distúrbios patéticos”. Então, o inquirido, já alquebrado, pediu ali mesmo que o cortassem de sócio.
O acometido, mas obstinado “Lá-Vai” chorou convulsivamente quando foi “eliminado” de subscritor. Não desistiu, porém, de continuar a enviar donativos e de acompanhar sempre de perto o destino da nobre casa. Para ele, constituiu grande alegria quando o Asilo / Patronato conseguiu um terreno no Alto dos Silveiros. Quem assina este texto desconhece os pormenores ligados ao facto de ali não se ter seguido em frente com um projecto. Mas podemos reportar (mais uma) história amarga da vida do “Lá-Vai”...
Um dia, na segunda parte dos anos 60, Mário Solano foi bater às portas de cidadãos que ele considerava de mais relevo. Também à porta da casa de Armando S. Pais. Já vinha a chorar. Convulsivamente disse ter ouvido dizer que o terreno do Alto dos Silveiros, pelo qual ele tanto lutara, levava descaminho. Assim, as crianças iriam continuar naquelas instalações que eram – como ele escreveu um dia – “a vergonha do Barreiro”. O “Lá-Vai” convenceu-se, então, de que morreria sem ver o Asilo / Patronato em nova casa. E assim foi...  
Podemos assegurar que o nome de Mário Solano, quando vindo à baila, provocava lembranças das mais positivas (quantas vezes também divertidas). Para abarcar aqueles que se pronunciaram mal, depreciativamente, a respeito do “Lá-Vai” e suas acções chegavam, à vontade, os dedos de uma mão. Aconteceu até, várias vezes, que foram os nossos contactados a introduzir o nome do “Lá-Vai” em conversas, não lhe regateando elogios... (“-Ponha lá no jornal que tem que haver uma rua com o nome dele”. Foi este o teor de alguns reparos...). É óbvio que o generoso, mas polémico “Lá-Vai”, não era pessoa de papas na língua, dizia sempre, naquele linguarejar monocórdio, o que lhe ia na alma em prol dos necessitados. Tinha que haver um ou outro que não gostasse dele, tanto do pró-, como do contra-regime, mas censuras vinham, em especial, daqueles que quase nada, ou mesmo nada, efectuaram pela comunidade. Mencione-se a seguir algumas figuras que o apreciavam...
Lá no Algarve inquirimos Manuel Cabanas sobre vultos do Barreiro, incluindo o “Lá-Vai”. O mestre xilógrafo apreciava o esforço de Solano em prol da infância desvalida. E terminou o seu depoimento com frase lapidar seca, tanto ao seu gosto: “O “Lá-Vai” e eu, sempre nos respeitámos!...”. Augusto Cabrita também muito simpatizava com o “Lá-Vai”. Executou-lhe esplêndidas fotos, como aquela da figura popular a vender cautelas na rua, publicada no livro Na Outra Margem – O Barreiro Anos 40-60 (1.999).
Disse-nos Antero dos Santos: “O “Lá-Vai”? Um homem de grandes iniciativas... Se elas vingavam, o “Lá-Vai” era corrido por “senhores”. Se não vingavam, tal devia-se – claro - a serem “coisas” organizadas pelo “Lá-Vai”. 
Também existia grande amizade entre o padre Abílio Mendes e Mário Solano. Contou-nos o nonagenário José Amado (que foi defesa titular do Luso F.C., outro grande apreciador dos esforços do nosso evocado) que um dia ocorreu um desentendimento entre o Padre Abílio e o “Lá-Vai”. Porquê? Este, com os seus amigos, aprontaram um andor para participar na procissão da Sr.ª do Rosário. Mas estava assente que, daquela vez, a procissão não passaria pela loja do “Lá-Vai”. O Padre Abílio não alterou o itinerário para satisfazer o anseio de Solano. Este – que era muito religioso – chorou, chorou a sua desdita. No Barreiro corria já, entre sorrisos, que o Padre Abílio havia “excomungado” o “Lá-Vai”...
O bom “proscrito”
Um dia há que prestar preito à memória de Mário Solano. Quem aqui escreve gostaria, por exemplo, de ver, na instituição sucessora do Asilo D. Pedro V, uma foto emoldurada de Mário Solano, o bom “proscrito”, em ampla galeria de retratos de antigos prestimosos vultos da Nobre Casa. Deveria ser um retrato dele já entradote. Como Carmen Silva tão bem descreveu no J.B., com “aquele rosto pálido e esquálido, fino bigode já encanecido e óculos descaídos sobre o nariz”. 
Citamos a seguir algumas palavras do jornalista Alfredo Zarcos publicadas em 21-7-1995 no Jornal do Barreiro, do qual chegou a ser o decano: “O bom do “Lá-Vai”... não era natural do Barreiro, mas fez mais por esta terra, pelas suas instituições, pelos seus desprotegidos, pelo seu progresso, do que milhares de barreirenses aqui nascidos... Era um filantropo... Um coração generoso, pleno de humanidade, sempre voltado à prática do bem. A rua com o seu nome tantas vezes alvitrada não existe ainda. Ingratidão e esquecimento dos nossos autarcas”.
Pois... E a “artéria Mário Solano” não existia em 1995, e ainda não existe no dia em que damos por terminada a revisão deste texto. E esse vulto do Barreiro já fechou os olhos para sempre no tão recuado 1970. Uma vera tristeza camarra...
Na notícia do óbito do “Lá-Vai” saída em relevante diário lisboeta lê-se que ele dedicou “especial carinho ao Patronato D. Pedro V, de que foi protector”. Sim, ele foi um protector, à maneira dele, claro, por vezes com iniciativas bem ousadas, pouco “ortodoxas”. O Asilo D. Pedro V, foi a “menina dos seus olhos”, a sua profissão de fé. Dominado pelo sentido do Bem Fazer, Solano sentia-se impelido a proteger a tão prestimosa Instituição e seus acolhidos.
Se o Barreiro desejar ser devidamente justo para com a memória daquela inigualável figura, ao mesmo tempo trabalhadora, sonhadora e benfeitora, haveria que integrar o seu nome na toponímia barreirense. (Isto, como é óbvio, apenas quando se resolver retirar o seu nome da por aí tão alegada “blacklist”...). Poderia ser numa ruazinha, num caminho ou numa vereda, digna “apenas” dum Homem Bom, e simples, do Povo, cujo lema supremo foi praticar o Bem.
A “política” de Mário Solano circunscrevia-se, no essencial, a ser bem sucedido, de modo regrado, na obtenção do seu ganha-pão, como trabalhador inveterado, e empreender o possível, de maneira tantas vezes singular, para proporcionar alegrias aos jovens mais desfavorecidos, mais carenciados, sempre com a esperança, que a eles se abrissem melhores perspectivas de vida do que aquelas que ele próprio tivera. Tivesse ele acreditado em “cartilhas” outras que a do poeta e pedagogo João de Deus, quem sabe se a sua memória fosse mais estimada globalmente.
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