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JOSÉ MARIA DUPONT DE SOUSA  (1863-1914)           

I - O Theatro Independente
II - O cinematógrafo
III - O artista, o ensaiador e o autor teatral
IV - O jornalista
V - “O Alminhas ou O Thesouro do Lavradio” 
VI - A bibliografia

Dupont de Sousa, uma figura que agiu de forma consagrada no teatro nacional das últimas duas décadas do Monarquia e dos primeiros (quatro) anos da República, esteve muito ligado ao Barreiro. No “Jornal do Barreiro” de 1-10-2004 chamámos a atenção para o facto de em 2005 e 2006  transcorrerem dois relevantes centenários da cultura local. Realmente, em 1905 (30 de Nov.) abriu as portas o Theatro Independente, a maior sala de espectáculos de raiz da vila. Situava-se na artéria que tem hoje o nome do carbonário Almirante Cândido dos Reis, do lado Sul, a poucas dezenas de metros do Largo da N.ª Sr.ª do Rosário. E foi em 1906 que chegou ao Barreiro, com grande alarde, o cinematógrafo. As primeiras sessões locais da novel arte - mais tarde apelidada Sétima Arte - tiveram lugar no Theatro Independente. E o literato Dupont de Sousa foi o grande impulsionador dos espectáculos levados a cabo no Independente, que existiu até 1914.
I - O Theatro Independente
No livro de referência “Do Theatro Português”, publicado há mais cem anos, pode ler-se uma entrada alusiva ao Independente. (Infelizmente não consta lá qualquer foto dessa casa de espectáculos). Citemos literalmente aquele trecho, não furtando o sabor da ortografia da época:
Theatro Independente (Barreiro) – Foi construído na rua Serra e Moura. São seus proprietários Dupont de Sousa & Comandita. É de madeira e ferro, coberto de zinco; tem 31 m de comprimento e 11 m de largura. Possue 26 camarotes, 400 logares de plateia, 150 de superior e 150 de geral. Para caso de sinistro tem 7 amplas portas na plateia e 2 nos camarotes. Tem salão e toilette para as senhoras. É bem iluminado a acetylene. O palco é vasto; tem 14 camarins e casa para adereços. À frente do theatro há uma esplanada, onde está construído o bufete. Foi inaugurado em 1905 com a comédia D. Cezar de Bazan”.
É de realçar a grandiosidade deste Theatro… Realmente, 700 assentos individuais somados aos dos camarotes (uns 4 por unidade), darão um total à volta das oito centenas de lugares, o que era mesmo muito naqueles tempos. E ainda o seria hoje…
O Theatro Independente  situava-se numa elevação barrenta. Em frente, para leste, ficava o chamado “Altinho”, também com muito barro, claro….  (A propósito: de onde deriva o nome do Barreiro, senão de barro, numa localidade onde predomina(va) a substância barro?). Mesmo a um século de distância, podemos bem imaginar os espectáculos ali abrilhantados pelas encenações com arreglos de Dupont de Sousa, (Passe o espanholismo então em uso!..). Tenha-se presente que, naquela época, o Barreiro era concorrida estância de veraneio de burgueses vindos de Lisboa e (por comboio) do Alentejo, que aspiravam a assistir a boas sessões no Theatro. (Só nos anos 30 desapareceria a apreciada praia norte com a construção da vasta muralha, realização do ministro algarvio Duarte Pacheco).
II - O cinematógrafo
Em 1906, lá no Independente muito se esbugalhavam os olhos com as primeiras imagens do “Kinematógrafo Edison”. Era a máquina moderna que produziu a grande revelação: a fotografia animada. Exibiam-se vários quadros, entre os quais um, a que os espectadores só poderiam ter reagido com inusitado horror: cenas da tremenda catástrofe das minas de Courrières, França, onde, no princípio daquele ano, haviam perecido mais de 1000 operários vítimas de explosões de gás e desmoronamentos. Outro momento alto do espectáculo foi a participação duma companhia de variedades com uma estrela espanhola, a Marincha. O organizador de tudo aquilo no Independente foi Dupont de Sousa, de quem traçaremos dados biográficos.
Em 12-3-2004, quem aqui assina publicou no “JB” uma longa entrevista ao camarro Luís Correia dos Santos “Catapirra”, naquela altura já à porta dos 101 anos. (Nascera no longínquo 1903). Era o derradeiro que podia transmitir recordações pessoais referentes ao Independente. Disse Luís “Catapirra”: “Eu e mais dois íamos, de pé descalço, com paus e dísticos, dávamos voltas pelo Barreiro, até à CUF, a fazer reclame do que ia no Independente. Estávamos ansiosos para que o cinema começasse, para eles nos darem 3 vinténs a cada um. Tinha eu uns 8 / 9 anos. Fui lá ver espectáculos”. E recordou-nos do “mudo”, do início do “nimas” na vila operária. 
No quadro de Belmiro Ferreira, que reproduzimos mais adiante, constata-se imagem do Theatro Independente. Aquele edifício surge, porém, demasiado afastado da (actual) Rua Almirante Reis. Mas tal não invalida a pintura e sua beleza.
III – O artista, o ensaiador e o autor teatral
O distinto vulto do teatro José Maria Dupont de Sousa veio ao mundo em Lisboa. Em publicações de referência consta que faleceu na capital em 27 de Julho de 1914, com apenas 51 anos. Nasceu em 1863. (Ou terá sido em 1864?). Desde a adolescência fez parte, como actor (sempre amador), de duas Sociedades das mais famosas: a Taborda e a Garrett. Foi o fundador do famoso Grupo Dramático Taborda, com o qual se exibiu no Barreiro já em meados dos anos 80. Ainda jovem tornou-se deveras conhecido em Lisboa como autor de textos da Arte de Talma, com representações, p. ex., nos teatros lisboetas Avenida, Variedades (feira de Alcântara), Trindade, Alegria, Príncipe Real.
A convite de Guilherme Augusto de Vasconcelos (1861-1942, natural de Palhais, filho do feitor da localidade), Dupont de Sousa veio residir para a vila dos ferroviários e dos operários corticeiros. Casou-se quando já no Barreiro, onde tinha parentes próximos de apelido Dupont.  Em 1893 tornou-se amanuense da Administração do Concelho, subalterno do Secretário Augusto César de Vasconcelos (1867-1927, bisavô materno de quem aqui escreve). Poucos anos depois, Dupont de Sousa passou a ocupar um posto de escriturário na empresa de Guilherme de Vasconcelos, que era comissário na Estação dos Caminhos de Ferro do Barreiro. Quanto ao teatro, Dupont começou por ensaiar amadores da Sociedade Capricho Barreirense (“Os Franceses”), a agremiação dos irmãos Vasconcelos.  
Guilherme – diz-se que persuadido por Dupont - resolveu construir um teatro e tornou-se o financiador do Independente. Foi constituída a Empresa Dupont de Sousa & Comandita. (E porquê o nome de Independente? Porque, desde logo, se desejava manifestar “imparcialidade político-cultural” quanto às duas sociedades de recreio mais populares: os “Franceses” e os “Penicheiros”).    
Dupont trouxe ao Independente das melhores troupes que pisavam os palcos de Lisboa. E, claro, não faltaram históricas películas (do mudo). Na vila formou-se o “Grupo Dramático Barreirense” com o seu apoio, onde ele era ensaiador. Chegou a actuar em Lisboa com o barreirense Herculano Marinho. Temos notícia de em 26-3-1905 se ter realizado no Independente uma radiosa festa artística em honra de Dupont de Sousa em que se estreou a sua comédia em 3 actos “Moços e Velhos”, com direcção musical do maestro espanhol Montilla. Subiram à cena, entre outros artistas, a então famosa espanhola Rogélia Cardó, que entraria na história do homenageado.
Dupont de Sousa teve descendência: os filhos José Luís, Luís Jaques e Ricardo Mariano, e uma filha, Rosália, que também se exercitou como actriz no Barreiro. O nosso evocado faleceu em Lisboa, Rua de S. Lázaro, em 1914, com apenas 51 anos, de doença súbita, quando se encontrava em casa da actriz espanhola Rogélia Cardó. Nesse mesmo ano de 1914, Guilherme de Vasconcelos ordenou a demolição do Independente.
IV - O jornalista
Dupont de Sousa não podia deixar de colaborar na imprensa lisboeta. Quando veio residir para o Barreiro, aconteceu sair do prelo o primeiro semanário local, “O Sul do Tejo” (19 Nov. 1893). Obviamente ele sentiu a necessidade de fazer o gosto à pena nesta gazeta, para mais sendo Augusto C. de Vasconcelos o editor, o seu chefe na Administração concelhia.
Logo no primeiro número, Dupont alinhou ideias – num sedutor português  – sobre a instrução primária (ou falta dela) ou sobre a libertinagem juvenil reinante no Barreiro. Em variados números d´ “O Sul do Tejo” surgiam umas “Pennadas” muito gozonas, em verso, assinadas por um tal “Diabo Solto”. Elas têm como origem a poética fantasia de Dupont de Sousa. Mas destaque-se agora o Alminhas...
V - “O Alminhas ou O Thesouro do Lavradio”    
Dupont de Sousa iniciou, no 1° número d´ “O Sul do Tejo” (como dito, em Nov. 1893), um romance em rodapés intitulado “O Alminhas ou o Thesouro do Lavradio”. (Procuraremos reproduzir, mais adiante, fotocópia do 1° rodapé). A figura de proa da obra era o Alminhas, o lavradiense de (alegado) nome completo Francisco José Gomes, então vivinho da costa (!), que ficou como o tipo popular que mais dava nas vistas na vila do Barreiro, Lavradio e “arredores”, nos finais do sec. 19.
O espertalhote Alminhas andava aí, sempre sonhando com almas benditas, quando se iniciou a publicação do citado romance n´ “O Sul do Tejo” (!). Só faleceria anos depois, em 1897, numa casita da Misericórdia da vila. Mas de onde lhe adveio o cognome de Alminhas? É que ele sentia-se inspirado por visões de bem-aventurança. E não faltava quem acreditasse em tais “alminhas”.
O Chico Zé Alminhas - que havia sido boieiro na Quinta dos Albuquerques, no Lavradio natal – fez eclodir o “acontecimento do Thesouro” em 1871. Com vincada persuasão alegou saber da existência de muitas moedas de oiro enterradas em determinada zona da propriedade onde laborara. E o pai do Alminhas, o António, corroborou com firmeza a visão do filho sobre o esconderijo. Logo uns tantos se lançaram febrilmente a escavar por aquele sítio, sendo que o Chico Alminhas, para receber protecção das tais almas benditas, logo requereu, e recebeu, “adiantamentos” de pelo menos quatro “pesquisadores”.
A coisa chegou aos ouvidos do morgado dos Albuquerques. Operários, guardados por sentinelas policiais, começaram a escavar “oficialmente” para se tirar a limpo se realmente existia ali o alegado depósito aurífero... Cavaram, cavaram, mas de tesouro, nada... A patranha veio ao de cima. Sucedeu trinta por um linha... O Alminhas recolheu ao Limoeiro. Foi julgado em tribunal por também ter aldrabado as autoridades. Foi-lhe aplicada uma pena rija de seis meses de prisão correccional. Seu pai também foi submetido a castigo, embora não tão severo. A coisa foi muito glosada na imprensa lisboeta, em primeiras páginas. Isto deu-se – repete-se – em 1871. O episódio do “Thesouro do Lavradio” não podia deixar de ser cantado em espectáculos e romarias por esse Portugal.                    
No seu romance encetado em 1893 n´ ”O Sul do Tejo”, Dupont de Sousa, com suas capacidades de ficção, emparceirou o Alminhas com outra figura popular, o barreirense Manel Pedro (que também existiu e estava vivo!), e ainda com uns trapeiros localizados em Alfama, de epítetos Pai Vulcano, Pé Leve e Fidalguinho.
Mas – para azar dos leitores - o romance nãoveio a lume para além do folhetim n° 14... (Foi substituído por outro folhetim, com autor de pseudónimo afrancesado. E “O Sul do Tejo” findaria em breve). 
O que terá levado Dupont de Sousa a suspender a longa novela que – sem dúvida - tinha sucesso garantido?  Uma censura? Terá o autor sido incomodado pelo próprio Chico Alminhas? Ou pelo Manel Pedro, um duro com cara de poucos amigos, muito dado a argumentar com obscenidades? Não temos a mínima ideia... Mas o Alminhas terá tido, alguma vez, conhecimento de qual seria o ponto forte daquele romance de Dupont em que ele próprio era o grande protagonista? Estaria programado um happy end surrealista? Em que – por exemplo, como por encanto – caísse do céu um Thesouro de moedas preciosas, o que até traria dificuldades à Justiça? Agora, só na eternidade se saberá...
Hoje ainda há conhecimento de outra valente trapaça levada a cabo pelo Alminhas antes do quase homérico caso do Thesouro. (Armando S. Pais escreveu sobre a patranha). Sucedeu em Sines, onde o Chico se fez passar por um mancebo desaparecido havia anos em África, com o qual ele apresentava certas parecenças físicas. Naquela vila sucederam festanças com maquias dispendidas à grande e à francesa. Porém, o advogado Manuel da Costa, de Santiago do Cacém, que se recordava de ter visto o Alminhas no Barreiro, pôs a verdade a nu. E este logo se pirou das alhadas que estavam para vir, dando às de Vila Diogo o mais célere possível.  
Sentimos que é pena não existir no Lavradio – terra que está no coração de quem aqui escreve – um beco, ou uma travessa “do Alminhas”, ou pelo menos uma lápide dedicada a esta personagem popular. Perguntamo-nos se alguém sentiu, nas últimas décadas, o chamamento interior que o levasse à produção de uma peça teatral – nem que fosse carnavalesca - dedicada ao épico “Thesouro do Lavradio”. Será que a figura do Chico Alminhas ressurgirá um dia em cena? O Alminhas certamente ainda nos ficará para outra ocasião, noutro contexto.
VI - A bibliografia
Dupont de Sousa escreveu para todos os gostos. Lê-se na antiga revista “Encanto” que ele veio a terreiro com cerca de 300 actos (!), dos quais muitos foram publicados. Quem sabe se alguma obra deste grande narrador ficcionista será um dia levada (de novo) à cena no Barreiro. Ou se, pelo menos, venha a ser editado um livrinho com algumas das suas peças teatrais. Porque não uma colectânea dos seus dramas, comédias, entreactos ou poesias, originárias deste autor tão polivalente, de nível nacional. Em que poderiam ser incluídos alguns dos textos concebidos pelo autor nos anos de residência no Barreiro, como – por exemplo – “O Cozinheiro Fim de Século”, datado de 1899.
Para finalizar divulgamos aqui (por ordem alfabética) algo do que detectámos de suas peças. (Algumas contaram mais de uma centena de representações na capital). Em primeiro lugar, reportamos as que existiam, em 2004, no Museu Nacional do Teatro, Lisboa. E que os interessados certamente ainda poderão consultar (e obter fotocópias). Infelizmente, a grande parte dos opúsculos não se encontra datada. São eles:
A Honra (Entreacto dramático), A Hora do Suplício (Drama em 3 actos), A Prima Chica (Comédia em 1 acto), A Taberna (Entreacto dramático), Bate Forte (Cançoneta), Fui Ver o Balão (Cena cómica), O Óbolo da Caridade (1883, Poesia dramática), O Cão do Nicolau (Comédia em 1 acto), O Chicote (Monólogo), O Cozinheiro Fim de Século (1899, Cançoneta excêntrica), O Filho do Pescador (Entreacto dramático), O Jogador (Entreacto dramático), O Padre Liberal (Entreacto dramático), O Primo da Prima (1893, Comédia em 1 acto), O Regresso à Pátria (Entreacto dramático), Os Dois Operários (1882, Entreacto dramático), Os Narizes (Monólogo), Que Beleza d´Hortaliça (Cançoneta), Rapaziadas (Entreacto dramático), Sem Comer e sem Dinheiro (Comédia em 1 acto), Uma confusão (Entreacto cómico), Valentes e Medrosos (Comédia em 1 acto; o guião impresso conheceu, pelo menos, 9 edições).
X X X X X
Do mesmo modo anotámos os títulos de obras de Dupont de Sousa, de que, em 2004, não encontrámos publicações ou simples textos dos guiões no Museu N. do Teatro. As obras são:
Abre bem os Olhos (Revista), A Mulher de Bronze, A Roda Viva, As Favoritas do Paxá,  As Marinheiras de Bambocha, As Medalhas de Ouro, As vinte Mulheres do Rei (opereta em 3 actos, tremendo sucesso, com a espanhola Rogélia Cardó), La Espada de Honor (Paródia a uma zarzuela, outro grande êxito), Maçã Dourada, Moços e Velhos, Nossa Senhora de Paris, O Centenário de Santo António, O Ressuscitado, Os Gatunos, O Trapeiro de Sevilha, Regimento Vermelho. Tudo dimanado do profundo talento de um literato de outrora, já tão olvidado, e que tão vinculado foi ao Barreiro.

 
     
 
 
   
DUPONT DE SOUSA
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