Barreiro Imagens

ArtBarreiro.com

Links Complementares

Contactos

 

Joaquim Alfredo Gallis
José Picoito
Miguel Correia
Alfredo Figueiras
Alfredo Zarcos
Domingos Silva
José Augusto Pimenta
Leonídio Martins
Nathércia Couto
M. Esther da Costa Figueira
A. César de Vasconcelos
Mário R. Solano "Lá-Vai"
José M. Dupont de Sousa
Ladislau Batalha
António Horta Rodrigues
Felizardo da Cruz "Buraca"
Rafael Idézio Pimenta
Carlos dos Santos Costa
Artur Baeta
Maria Neves da Silveira
Padre Santos Costa
J. Madureira "Braz Burity"
Júlio Araújo
Armando da Silva Pais
António Balseiro Fragata
Augusto Sabbo
Júlio Costa "Julinho"
Raquelina Martins César
Joaquim Oliveira da Silva
Aquiles de Almeida
Manuel Teixeira Gomes
C. de Sá, Conde do Lavradio
M. Gualdino "do comboiozinho"
Belisário Pimenta
Artur Agostinho
António José da Loura
Felismina Madeira
Fialho de Almeida
Henriqueta Gomes de Araújo
Francisco da Costa Neves
Francisco Horta Raposo
José Joaquim "Oficial"
António José Piloto
São Pedro de Alcântara
Plínio Sérgio
Herculano Marinho
Augusto Gil
Francisco Casal

VINCULADOS I

 

GRUPO I

 

GRUPO II

 

GRUPO III

 

GRUPO IV

 
     
 

António Horta Rodrigues (1908-1997)

Oficial de barbearia, bibliotecário, jornalista, associativista, esperantista

1 – Barbearia Paris
2 – Jornalistas desportivos
3 – F.C.Barreirense / As bibliotecas
4 – Jornal “O Barreirense”
5 – A Política, a “histórica” procissão de 1931, etc
6 – Esperantista
7 – Brincalhão
8 – Lar da Misericórdia

 

Este nosso evocado foi um vulto marcante do Barreiro Velho. Durante 48 anos exerceu profissão na sua Barbearia Paris, Rua Aguiar. A dois passos dos que foram, durante décadas, os dois cafés mais selectos da vila: a Chic, a que se veio juntar o Café Barreiro. Horta tornou-se um muito relevante associativista do F.C.Barreirense, a agremiação desportiva mais popular da vila.
Uma parte dos elementos que se seguirão provêm de uma entrevista facultada em 1995 a este autor na Misericórdia do Barreiro, onde Horta Rodrigues era utente. Mas quem aqui escreve conheceu Horta “Barbeiro” quase desde que se começou a entender, pois que as portas da barbearia ficavam mesmo defronte, a poucos metros, da residência de seu avô materno.
António Horta Rodrigues nasceu no Barreiro, no “Pátio dos Bichos”, em 23-3-1908. Aos sete anos mudou-se  para a Rua António J. de Almeida. Os progenitores eram naturais das Minas de São Domingos. O pai, fogueiro-maquinista dos CFSS, ascendeu a chefe dos depósitos. Houve desportistas na família, mas António, devido a deficiência no andar, não  praticou desporto.

1 - Barbearia Paris     

Foi em 1929 que António Horta se estabeleceu na Rua Aguiar 191 e 191-A (a então artéria principal da vila) com o seu sócio Militão, de Loulé. Este logo abriu salão de cabeleireiro de damas no rés-de-chão ao lado da barbearia. (Segundo anúncio de 1930, a loja era “luxuosa e confortável, com gabinetes reservados às senhoras”). Horta teve vários ajudantes, como o António Filipe, que abriria loja própria. Mas Júlio Militão chamou-se o seu único sócio.
Pode afirmar-se que a Barbearia Paris foi muito frequentada, mais nos anos 30 e 40, por élite da localidade, em especial por muitos sócios relevantes dos Franceses e do Clube 22 de Novembro. E também do F.C.Barreirense, incluindo uma série de ases do futebol. A Paris era como que uma “filial” dos rubro-brancos. Mas o centro do Barreiro ia-se deslocando cada vez mais para Sul. A decadência daquele estabelecimento acelerou-se após a abertura do Ginásio-Sede do F.C.B. (Maio 1956). A maioria dos jogadores e dirigentes do F.C.B., por exemplo, já não era residente nas artérias próximas.
Os jovens utilizavam agora máquina de barbear, muitos adultos tinham-se adaptado a ela. Já não havia clientela suficiente para tantas barbearias. (Estas chegaram a somar – dito por peritos – entre 70 e 80 na vila-operária). E muitos cidadãos tornaram-se algo mais descuidados com o cabelo. Até passaram a dispensar os caldinhos semanais. (Já não iam tantas vezes aparar a pelugem na nuca e nas patilhas...).   
Quando passávamos na Barbearia Paris, já na segunda metade dos anos 50, e por vezes trocávamos impressões com o artífice, sentíamos pena de ver tão poucos fregueses naquele estabelecimento que sabíamos ter sido palco de tanta história camarra. Mas Horta reformou-se bem tarde, a Barbearia Paris encerrou as portas só em 1977.
Em 1995, a pedido deste escrevinhador, António Horta recordou uma série dos seus clientes habitués de renome. Mencionou o dr. António Pacheco Nobre, João Prates, Ezequiel Cavaco, António Balseiro Guerra, Jacinto Nicola Covacich, Armando Miranda (este só aos sábados, especificou), Eduardo Inácio Nunes e seu irmão João. Também Aquiles de Almeida (Camarário, maestro, que se tornou famoso na vila, por exemplo, na criação de esplêndidas revistas teatrais e por ter composto e dado letra ao Hino do Barreirense. Escreveu o belo texto da “canção” de louvor ao Estado Novo e seus maiorais, quando o Presidente Carmona, Salazar e Duarte Pacheco visitaram o Barreiro em Nov. 1933. Tal teve lugar por ocasião de relevantes inaugurações e da cerimónia da colocação da primeira pedra para as novas Oficinas da CP (que, graças a ... Duarte Pacheco, não foram despejadas da vila). Cantava-se – entre outras estrofes - “Que Portugal se abeira do momento, De glórias mais, mais altas e mais vivas – Coro”. Aquiles foi avô do actual tão popular maestro Victorino). Horta “Barbeiro” também recordou Horácio Alves, (O algo estróina, mas superculto industrial de cortiça, jornalista e escritor, que residiu uns anos por cima da barbearia. Ele era “o que tinha mais lata. Por vezes levava da vitrina frascos de água de colónia”, que “depois pagava ou não”).
Um cliente de sempre foi José Maria da Costa Mano, que durante anos e anos ia à Paris, em regra diariamente, para receber uma escanhoadela do Horta. Este nosso avô dava  a guardar ao Horta (oh, surpresa nossa!), uma garrafa de ginginha para ele tomar um trago antes de o mestre lhe aplicar as rapadelas. José Maria “Zé do Café”, benquisto merceeiro e vendedor de gasolina, não podia prescindir do tal gole diário. E servia-se do “esconderijo” na loja do Horta. Furtava-se, assim, ao controle da querida esposa Berta Jesuína Vasconcelos.
Bons clientes ferrenhos do Luso F. C. também os houve como um dos primos do nosso António, Francisco Horta Raposo (Uma das personalidades mais gradas do Luso F. C., não só como futebolista das primeiras, mas mais ainda como figura máxima de “O Luso”, órgão de imprensa dos azuis ao longo de décadas). Ou os lusófilos João Padrão e o dr. Victor Hugo Velez Grilo (O médico tão simpático nascido em quinta bem perto do Lavradio. Esta figura histórica local teve seu primeiro consultório ali quase ao lado da entrada para o “Pátio dos Bichos”. A despeito de suas eminentes actividades políticas contra o regime vigente por altura das duas guerras (em que Portugal – vá lá... - não participou) tem seu nome incluído em alegada “lista negra”). Assis Esperança, o brilhante publicista, era obrigatório na barbearia, todas as vezes que em serviço vinha de Lisboa à loja da Singer (máquinas de costura), contígua à barbearia.    

2 - Jornalistas desportivos

Nos bons tempos do futebol local, quando os repórteres desportivos de Lisboa apareciam amiúde no Barreiro durante o dia com o intuito de efectuar reportagens antes, ou depois, de prélios importantes, era quase certo e sabido que se dirigiam à Barbearia Paris. Isto porque bem pertinho dali não era nada difícil entrar em contacto com mancheia de atletas e dirigentes relevantes. Num perímetro de cem até poucas centenas de metros moravam craques, como os Pirezas, os Câmaras, o Zé “Toupeira”, Leonel de Almeida, João Azevedo, Alexandre de Almeida, Chico Moreira, Arsénio Trindade, os irmãos Armando e Zeca Ferreira, Artur Quaresma, Chico Silva “Salgueiro”, os Valadares, Manuel Marques “Taínha”, Silvino, mais tarde Carlos Gomes e João Faia, e tantos outros. Parecia um viveiro. Uma série de vezes surgiram na imprensa da especialidade imagens tiradas à porta da Barbearia Paris, com vedetas do pontapé na bola, sorridentes e confiantes,  reunidos para o efeito.

3 - F.C.Barreirense  /  As bibliotecas

O nosso evocado foi membro de numerosos comités e órgãos do F.C.B.. Começou por pertencer à comissão que adquiriu, em 1930, o Estandarte magno do clube. Depois vieram as actividades em comissões do basquete, Pró-Sede, Conselho Geral, etc. Pertenceu às direcções de 1944/45 e 1947/8. Também fez parte da Direcção Distrital de Basquete, quando estava sediada nos Franceses.

Horta pertenceu ao grupo que fundou, em 11-4-1931, a primeira biblioteca do Barreirense na Sede localizada em esquina Rua Aguiar / Largo Casal, 1° andar. (O iniciador chamou-se Francisco Luís Maria, conhecido por “Faquinhas”, hoje muito esquecido; o que talvez se possa entender, ou não). Horta Rodrigues tornou-se o bibliotecário mais operoso das Comissões do F.C.B., até ao encerramento da Sede por cima do Café Barreiro (1956).
(A propósito… Não se desconhecia que Horta era um astucioso passador de volumes de cariz político ou de outros temas “trepidantes”, colocados pela Censura oficial no índice dos proibidos. Muitos desses livros eram trazidos à sucapa da Europa Central e…, em menor número, da Europa de Leste). 
4 - Jornal “O Barreirense”

Há que dar especial relevo à dedicação de Horta pelo jornal do Clube (Que foi considerado o melhor órgão do género depois dos semanários dos então “Quatro Grandes”). No período áureo do mensário “O Barreirense” (Dez.1955/Julho 1961) foram Armando Silva Pais (director), João Inácio Nunes (redactor principal/anúncios) e António Horta (secretaria) que “aguentaram” o jornal sem interrupções e … sem prejuízo. Em prol do F.C.B., e da cultura, era ver Horta, incansavelmente, batendo à máquina de escrever nas bibliotecas e depois no pequeno gabinete do jornal já no Ginásio-Sede.

Saliente-se que Horta Rodrigues – que só completara a instrução primária – parecia saber mais de gramática e de ortografia que não poucos “sôtores”. Numerosos artigos publicou ele em “O Barreirense” alusivos a efemérides do desporto local, apoiados em arquivo próprio. Assinava com A.H.R. ou simplesmente A. Reproduzimos, no final, um dos seus escritos.

(Vem a talho de foice afirmar que o presente escrevinhador encetou sua actividade na imprensa (regionalista) em “O Barreirense” com 15 anos e 4 meses. Em torno desta gazeta do F.C.B. nasceu a nossa amizade por Horta Rodrigues. E a ele devemos uma gentileza que nunca poderemos esquecer… Quando ele deu por finda, em 1961, sua preciosa colaboração no periódico do F.C.B. (na secretaria e em textos) ofereceu-nos - de modo imprevisto – o seu material histórico referente ao nosso clube comum, material esse que ele preservava em salinha traseira da barbearia. Material esse que, anos depois, se “transferiu” para paragens helvéticas…).  

5 – A Política, a “histórica” procissão de 1931, etc

Ninguém ignorava que na barbearia do Horta se transmitia – talvez bem mais que noutras -  muita mensagem política com a máxima discrição. Nas últimas vezes que o vimos falámos  também  de política. Que o Costa, o assassino do Presidente Sidónio Pais, anunciara já na Funcheira: “Vou matar o Sidónio…”. 
Horta ainda se recordava – era ele um garoto - das pilhagens em Maio de 1917 a lojas e armazéns do Barreiro. À frente do governo da I República encontrava-se Afonso Costa, apodado de “racha-sindicalistas”, que deu ordem para que forças policiais na margem sul do estuário do Tejo - onde reinava a fome - não interviessem nos projectados “aprovisionamentos” populares, caso se tratassem apenas de “autoaprovisionamentos”. Duraram dois dias, os saques não só a víveres, mas também a têxteis, calçado, tabacos, etc, até a material de armazém dos caminhos de ferro na Rua Miguel Pais. Machados também foram usados como armas brancas. “Encontraram, dias depois – afirmou Horta – “muito material roubado, escondido no Alto do Zé Ferreira”. Os assaltos no Barreiro Velho apressaram, pelo menos, duas mortes: “apenas” de senhoras de terceira idade…
Horta também muito sabia contar da “histórica” Procissão da Nª Srª do Rosário de 16 de Agosto 1931, durante a Ditadura Militar. Já lemos em “texto histórico”, primando por demasiada “imaginação”, que a culpa do sucedido naquela cerimónia religiosa ficara a dever-se aos insultos lançados pelos católicos, ofendendo os assistentes. Que sentiram necessidade de reagir…
Mas, “não foi bem assim”. A “coisa” que rebentou naquele dia estava bem “fisgada”. Muitos crentes, em especial os pescadores (incluídos os das lendárias muletas), aspiravam havia anos a que, finalmente, voltasse a realizar-se a procissão, após numerosas proibições anti-clericais impostas por “democratas” republicanos e anarco-sindicalistas. Argumentavam estes que a população do Barreiro era “contrária” à realização de procissões. Mas os católicos insistiram, e levaram a efeito a procissão nas festas de 1931, com uma banda de música de fora.
Naquele dia de Agosto aquilo redundou em tumulto e pancadaria. A procissão começou por sair com normalidade, com muitos crentes. Mas ao longo do percurso iam sucedendo protestos e blasfémias, não só de manifestantes locais, mas também de outros, depois alcunhados de díscolos, que se tinham deslocado de Lisboa para “ajudar à festa”.
Ao longo de anos fomos ouvindo testemunhos… Foi já no percurso de retorno à Igreja da Srª do Rosário que tudo descambou em grande. Quando os devotos passaram perto do café da Chic encontrava-se lá um grupo de provocadores de chapéu na cabeça. Então, um dirigente do Barreirense, o F. P. “Marreco”, começou a arremessar objectos para a procissão a partir do 1° andar da sede do seu clube, no Largo Casal. Começaram a cair pedras vindas de telhados e ruas próximas. Muitos participantes da procissão, entre os quais mães com crianças, fugiam aos gritos para a praia. Devotos arrearam os andores e escapuliram-se em pânico. Os pescadores, porém, puseram de lado o andor do seu Protector, o São Roque, despiram as opas vermelhas e procuraram esmurrar os provocadores dos chapéus na cabeça e outros arruaceiros. Os membros da filarmónica (Segundo se lê) de Paio Pires escapavam-se para dentro dos Penicheiros, procurando salvar a pele e os instrumentos. Os clérigos, apavorados, iam-se refugiando em residências que lhes abriam as portas.  
O arraial de porrada e as estrepitosas cenas de pânico fizeram com que o Barreiro surgisse no noticiário internacional. Não é muito vulgar que um préstito religioso termine em pandemónio. (Pena foi que não estivessem presentes repórteres de filmagens). 
Por fim, os andores lá foram levados precipitadamente para a Srª do Rosário. Na memória de muita gente ficaram alguns dos desordeiros postados à porta da Chic, por serem “meninos-muito-bem”, tais como filhos de um antigo Presidente da C.M.B. e um futuro médico (que muito conceituado e respeitado viria a ser). Chegou a haver detenções policiais. Mas, talvez porque estavam envolvidos aqueles “meninos”, a coisa depressa esboroou…        
Na entrevista de 1995, Horta Rodrigues confirmou o que sempre se soube. A acção anti-procissão foi um conluio, ou mais bonito, um complô. E Horta também revelou um pormenor que depois quase foi envolto em secretismo. No primeiro andar da Chic reuniram-se, naquela noite, os aniquiladores da procissão com as opas vermelhas “conquistadas”. Com satisfação cortaram-nas em pedaços e distribuiram-nas. E levaram-nas para casa como “recuerdos”, a título de troféus, de certeza com pundonor.  
Agora com um ligeiro sorriso… Ainda existirá por aí – talvez em mala semiesquecida em sótão – algum farrapo daquelas opas? Seria espectacular peça de museu.   

6 - Esperantista

Como muitos jovens do seu tempo, de todas as correntes políticas, António Horta sentiu-se atraído pelo estudo do esperantismo, língua universal da amizade. Nos anos trinta ingressou  na sociedade esperantista barreirense LESPA, cujas aulas se efectuavam no Sindicato dos Ferroviários. Foi muito amigo de Manuel Firmo, vizinho da Paris, o secretário e um dos professores daquele grupo. Este foi forçado a exilar-se na Espanha republicana em Junho de 1936. Horta também foi preso político, não durante a Guerra de Espanha, mas sim em plena II Guerra Mundial. Afirmou ter estado 69 dias preso em Lisboa. Interrogaram-no no último dia e mandaram-no embora sem julgamento. Seu nome fazia parte duma lista suspeita com nomes de esperantistas. 

 7 - Brincalhão

António Horta era muito folgazão, no bom sentido. Quando o Barreirense conquistou  a Taça Carnaval em Lisboa, em 1934, ele era um dos equipados que se fazia transportar na ornamentada camioneta alegórica.
Nos velhos tempos houve casos de arromba. Como esta… Um nosso familiar bem chegado lembrava-se de, quando era jovem, a Barbearia Paris ter sido a habitação de um macaquinho da raça saguí. Ensinaram-no a fazer o gesto típico do -Povinho, eternizado por Bordalo Pinheiro. Mas tal não bastou. Em lições de mímica, o pequeno símio foi aprendendo outros gestos ainda menos polidos. Tal provocava muitas risadas, mas senhoras que lá iam ao cabeleireiro ficavam horrorizadas, para não dizer indignadas.  E o animalzinho (Como ele se chamava perdeu-se na voragem no tempo!) teve que abandonar para sempre a loja do Horta “Barbeiro”. A bem do negócio...
Recorde-se também aquela em que Horta apostou que o bombeiro Mano Chico iria mostrar a todos, lá na barbearia, o seu corpo esbelto. O certo é que aquele “Soldado da Paz”, o mais afamada da vila, passeou na Rua Aguiar - saído da Barbearia Paris - só de camisola interior e cuecas. E o Horta (e julga-se que também o Mano Chico) ganharam a aposta.

8 - Lar da Misericórdia

Após a mudança de Regime (1974), Horta afastou-se para sempre do Barreirense, o que por muitos foi lamentado. Entregou-se  ao seu partido. Deixou de frequentar o Ginásio-Sede, até já não ia torcer pelo F.C.B. nos encontros de futebol das I / II Divisões. Mas tal em nada invalida que ele, e sua Barbearia Paris, detenham, enquanto houver memória, um lugar marcante na História do Barreiro Velho do sec. 20, e na História do F.C.B..
António Horta Rodrigues passou os últimos anos de vida calmamente, com a esposa, no Lar da Misericórdia. Fechou os olhos para sempre num Hospital de Lisboa, em 4 Julho 1997. A esposa, companheira de toda uma vida, sempre tão risonha, a Dª Preciosa Duarte, faleceu em 17 Fev. 2006, com 95 anos, na Misericórdia do Barreiro.
X X X X X 
Quando a Barbearia Paris decaiu muito, qual foi no mundo dos Fígaros barreirenses (“Fígaro cá, Fígaro lá!”, cantarolava-se por vezes na brincadeira), qual foi – repete-se - o  estabelecimento que a substituiu como local de conceituada élite? Quanto a nós só pode ter sido a Barbeariado Abrantes”, no início da Rua Miguel Bombarda, em frente da central de telecomunicações. Por ali passava como que a “fronteira” do Barreiro Velho.   
Durante bons anos exerceram lá seus misteres Luís Avelino “Barriguinha”, Patrício e José Miguel P. Campos “Pacalica”, cada um em redor de sua excelente cadeira de rodar.
“Queres saber? Vai ao barbeiro!” – era voz do Povo... Na Barbearia “do Abrantes” colhiam-se das mais recentes e relevantes informações, não tanto de vertentes políticas – estas bastante evitadas - mas sobre o desporto local, em especial sobre o F.C.Barreirense, cujos terrenos de jogos ficavam ali a dois passos. Mas também não se desdenhava espraiar novidades de índoles pessoais/privadas, para as quais também eram necessárias não poucas precauções! 
Realmente, muitos cidadãos de primeira ordem (p. ex.: camarários, diplomados, comerciantes) quando queriam “ir ao Baeta” no Barreiro escolhiam a Barbearia “do Abrantes”. O serviço era óptimo, preços mais em conta que os aplicados em Lisboa, e havia por lá um bom número de cadeiras confortáveis, não só para fregueses à espera de vez, mas também para conversadores privilegiados que por lá abundavam.
Agora já não há barbeiros! Como o mundo muda!.. Consta que, quando se visita hoje os cabeleireiros de homens (que substituem os barbeiros), é bem menor a possibilidade de “tirar muitos nabos da púcara”.

 

 

 
     
 
 
   
HORTA RODRIGUES
ILUSTRAÇÕES E IMAGENS