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Ladislau Batalha  (1856 - 1939)
Viajante, professor, publicista, jornalista, político, pedagogo

Concentremo-nos num vulto insigne a nível nacional: Ladislau Estêvão da Silva Batalha. (Apelido original: Estevam!). Veio ao mundo em Lisboa no 2-8-1856. Em jovem manifestou-se nele o espírito da aventura, depois veio o homem regrado, inteligente, amigo do próximo.
O Barreiro foi importante etapa do seu percurso, onde viveu alguns anos, onde fundou o primeiro periódico socialista da localidade. E onde continuou a dedicar-se ao ensino, também de idiomas que muito dominava: o francês e o inglês. E até falava o ...  alemão. Quando em 5 de Outubro de 1910 se implantou a República residia ele na vila operária.
Uma carreira brilhante
Era originário de família de comerciantes modestos. Desde sempre ávido de conhecimentos, L. Batalha decidiu esquadrinhar o mundo. Iniciou a vida de trabalho como moço de bordo, passou a marinheiro, viajando também pelo interior da África (incluindo a portuguesa). Quis fazer o périplo do mundo. Como baleeiro percorreu os oceanos boreais, conheceu depois as principais cidades norte-americanas. Na Califórnia embarcou para as ilhas Sandwich, errou pela Ásia (Japão, China, Ceilão, etc), regressando pelo Suez. Chegou a trabalhar na Inglaterra. Após 11 anos de vida itinerante por boa parte do planeta regressou a Lisboa com a idade 31 anos, repleto de experiências e saberes.
Republicano, começou a escrever em jornais lisboetas, espraiou-se com assiduidade pela pequena imprensa da província. A sua paixão pelas ideias socialistas fê-lo amigo de Azedo Gneco (1849-1911). Foram dois dos fundadores do (primitivo) Partido Socialista.  
L. Batalha sempre se bateu com a maior rectidão e moralidade pelos ideais do seu partido, tornando-se sócio honorário de bastantes associações operárias. As suas actividades iam-lhe proporcionando agora razoáveis capitais. No regime republicano veio a ser deputado pelo PS na legislatura de 1919–1923, pelo círculo do Porto, assumindo então o posto de chefe de gabinete do ilustre advogado Ramada Curto.
A vida do nosso evocado foi um exemplo de quanto podem resultar positivos o trabalho e a força de vontade postos com inteligência ao serviço dos seus semelhantes. Ladislau Batalha faleceu em Arruda dos Vinhos em 26-11-1939, onde residira nos últimos cinco anos de vida.
No Barreiro, a vila operária, a “Terra do Carcanhol”
Deixou escrito Armando S. Pais - que recolheu valiosas memórias de antigos correlegionários barreirenses de Ladislau Batalha - que este adquiriu uma quinta no Bairro das Palmeiras, na antiga estrada do Lavradio, onde passava temporadas, em especial no Verão. E onde também se dedicava à feitura de seus publicações. Afeiçoou-se mesmo ao Barreiro. Passou a residir no centro da vila, na Rua Joaquim A. de Aguiar (a “Rua Direita”), no então n° 301, 1° andar esq..
Em 1-5-1909, na Associação de Classe dos Operários da Indústria Corticeira, foram aprovados os estatutos – elaborados por L. Batalha - do (terceiro) Centro do Partido Socialista da vila. (Recorde-se, todavia, que os ferroviários locais lutavam então, na sua grande maioria, pelos ideais anarco-sindicalistas).
Fundadores do PS barreirense foram, entre outros, Ladislau Batalha e sua segunda esposa, Ernestina Costa, que tinha parentes no Barreiro. A Sede veio a situar-se na Rua Serpa Pinto. Em 5-12-1909 foi divulgado o n° 1 do “Ávante!”. Era este o título da primeira gazeta socialista da vila, sendo Ladislau Batalha o director e – como lá se lê - proprietário. A folha - que já se afastava do socialismo utópico propagado poucos decénios atrás – era muito lida fora do Barreiro.
Sendo brilhante autodidacta, sem curso oficial,  Batalha veio a receber um diploma do Estado. Também no Barreiro se dedicou a leccionar operações comerciais, a dar conferências e aulas de línguas estrangeiras. Alunos seus que iriam ter renome na vila foram, por exemplo, José Francisco da Costa Neves (futuro Provedor da Misericórdia), Horácio Ferreira Alves (futuro publicista), Joaquim José Fernandes (futuro Presidente da Câmara).
Por iniciativa de L. Batalha, na sede do Centro Socialista logo foram ministrados cursos de vários tipos e aberta uma Livraria Pública. E agregada uma União Fraternal das Mulheres do Barreiro, que começou por instituir uma creche. 
Com a eclosão do 5 de Outubro de 1910, o Partido Socialista do Barreiro - onde abundavam os operários corticeiros - perdeu de imediato influência. Muitos dos companheiros (era assim que os filiados se tratavam entre si...) demandaram o eufórico Partido Republicano Português.
O “Ávante!” era o único jornal existente no Barreiro quando do 5 de Outubro. Como que estrangulado pelo Partido Republicano, viu-se obrigado a encerrar a actividade com a edição de 10 de Novembro de 1910. Ladislau Batalha fez as malas e deixou (como ele próprio escrevia) a “Terra do Carcanhol”. Regressou a Lisboa. 
Destaque-se, porém, que o Barreiro viria a tornar-se – para estupefacção geral  - a primeira Câmara Municipal do país a eleger uma maioria socialista (!). Isto no triénio 1920-1922, derivado da tremenda desilusão com a evitável e assaz dolorosa participação militar portuguesa na guerra dos gases mortais da França/Bélgica (Fev.1917- Nov.1918), engendrada, em especial, por Afonso Costa. Tal ainda mais fez piorar a situação das classes mais desfavorecidas. Mas à edilidade barreirense de 1920-1922, liderada por socialistas, faltavam condições para implementar melhorias. Voltaram as Câmaras de maioria republicana. Houve relevantes socialistas locais, que desiludidos com a estagnação e a desordem reinantes, aderiram em 1926 à Ditadura Militar, fazendo alguns carreira no regime autoritário assente na Constituição Republicana de 1933.
Bibliografia
As obras escritas de Ladislau Batalha abrangem, de modo impressionante, dos mais diversos ramos do saber, tais como: filologia, sociologia, pedagogia, economia/comércio, história, política, mas também incluem livros de viagens e de memórias, romances, literatura teatral e até de linguística (“Línguas de África”). É de assinalar que este L. Batalha, vero socialista, assumia posições – por exemplo no livro “A Nova Inquisição ou o Directório Republicano e os seus Actos perante a Opinião Pública” -  contra determinadas decisões extremistas de republicanos, determinações essas que, em algumas zonas, se tornaram populares, mas que, por fim, tanto contribuiram para o tremendo fracasso da I República.
L. Batalha, que sempre pugnou por um socialismo revolucionário (incluindo obviamente a luta por melhores salários, melhores condições de trabalho, as oito horas de trabalho, melhoria do descanso anual) em vários aspectos nunca poupou críticas aos partidos republicanos. Por exemplo, também quanto às escassas medidas prestadas em prol da instrução operária.
Ladislau Batalha, um Homem Bom   versus   Gomes Leal
Cabe aqui uma narração em que avulta a extrema ternura de Ladislau Batalha. Já avançado na idade e residindo em Lisboa, condoeu-se do estado material e mental do tão popular poeta, também satírico, António Duarte Gomes LealAlbergou-o em sua própria casa sita na Rua do Telhal, Lisboa.
Eis algumas palavras respeitantes a Gomes Leal (1848-1921), hoje também muito esquecido. Seguira vida de tabelião, as suas publicações tornaram-no um dos vates mais benquistados do seu tempo. Até Bordalo Pinheiro o caricaturou como o “Poeta da Meia-Noite”. O republicano de sempre, mas cristão, que muito chegou a editar, publicou em 1914 um panfleto contra Afonso Costa intitulado ”Pátria e Deus e A morte do Mau Ladrão”.
Então que levou Ladislau Batalha a tomar a decisão de albergar Gomes Leal? Ainda relativamente jovem, este tornara-se um boémio de natureza. E com a perda da mãe, que fora o seu amparo, ainda mais ele se converteu a uma vida desordenada. Chegou à extrema penúria, a partir de certa altura já dormia ao relento pelas ruas de Lisboa. A atitude de compaixão de L. Batalha para com Gomes Leal, albergando o vate em sua casa durante bom tempo, foi bastante elogiada em todo o país. Ladislau Batalha não se mostrou apenas um lutador insano, mas correcto, pela melhoria das condições de vida dos mais carenciados. Foi também, em suma, um Homem Bom.
Assinale-se que não existe na toponímia do Barreiro uma artéria denominada Ladislau Batalha. Quando sucederá na cidade o reconhecimento oficial deste grande português que tanto teve a ver de positivo com a vila de há um século? Mais vale tarde que nunca...

 

 
     
 
 
   
LADISLAU BATALHA
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