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FELIZARDO DA CRUZ “BURACA”
(e outras figuras populares do futebol de antanho)

1 - Vendedor de peixe                                          6 - Rifas e apostas

2 - “Buraquinha”, “Buraca”. Analfabeto         7 - Organizador de excursões                                

3 - Camarrão até mais não                                  8 - A família. Muito estimado      

4 -  A muralha. Os clamores dos golos            9 - Figuras populares do futebol de antanho  

5 - Relações com as Direcções                               

Rememora-se aqui um grande adepto do desporto vinculado à vila do Barreiro: o simpático, indefectível entusiasta Felizardo da Cruz, o “Buraca”, vendedor de peixe. O que se refere neste texto vem na sequência de nosso artigo na “Voz do Barreiro” de 25-11-2000, intitulado “Ano 2.001 – Centenário do Futebol no Barreiro ( I ) -  Está escrito, foi em 1901 que se iniciou cá a prática do “foot-ball”.

Na altura chamámos a atenção da Câmara Municipal barreirense, por carta,  para o conteúdo de alguns poucos, mas preciosos, escritos alusivos aos primeiros passos do desporto-rei local, trechos esses divulgados na imprensa boas décadas atrás. Também lá constava algo sobre o primeiro “club de football” do Barreiro (o Sport Club Barreirense, fundado em 1901) e referente aos primeiros praticantes locais do ”shoot” na bola. De entre estes proviera um óptimo praticante, Costantino Silva (Tètas), o primeiro que, com compensação monetária, se transferira para outro clube: o S. L. Benfica. A nossa Câmara decidiu comemorar, com entusiasmo, este Centenário no ano próprio, em 2001.

Em torno da efeméride abordámos, naquele semanário, brilhantes e tristes momentos do futebol no Barreiro, grandes partidas, valorosos praticantes, prestimosos dirigentes e jornalistas, edifícios grandiosos e troféus gloriosos. E não nos podíamos esquecer dos “doentes” da mais popular modalidade por estas paragens. A primazia tinha que ir para o inesquecível Felizardo Henriques da Cruz, o “Buraca”, tido durante anos e anos como o mais incondicional “enfermo da bola”. “Torcia” como ninguém pela agremiação mais popular da vila, o Futebol Clube Barreirense. Cremos que hoje em dia já não existem “afeiçoados” daquelo tipo pelo pontapé-na-bola. Outro como o Felizardo? Nem nada que se assemelhe...

1 - Vendedor de peixe

Este nosso evocado era, de profissão, como já dito, vendedor de peixe. (Ou simplesmente peixeiro). Durante anos teve um “lugar de venda” muito especial na Travessa Padre Abílio Mendes, sobre o murete de tijolo que servia ao escoamento das águas da Praça Velha para a praia. Era aí que ele arreava a giga. (Por vezes também em sentido figurado!). Isto de manhã, pois de tarde ganhava a vida trasladando ao ombro o pescado, apregoando-o pelas ruas, em duas canastras de verga que pareciam tabuleiros. Quando mais velho, não podendo já arcar com o peso, passou a deslocar a mercadoria num carrinho. O Felizardo vendia muito a rol, isto é, fiava o peixe. Normalmente era aos sábados – dia em que a maioria dos trabalhadores recebia os salários -  que ele procedia às cobranças. O dinheiro metia-o num saco de pano – sempre em lamentável estado de limpeza – que trazia na algibeira.

2 - “Buraquinha”, “Buraca”. Analfabeto

Há poucas décadas não havia ninguém no Barreiro Velho que não conhecesse historietas (hoje há quem prefira dizer “estórias”) envolvendo Felizardo da Cruz. Importante pormenor da sua biografia relatou-nos Manuel Firmo (1909-2005). Tinham sido colegas de equipa em categorias inferiores (nas terceiras) do Barreirense. O magrinho Felizardo era então conhecido por “Buraquinha”. (Um à parte: quem aqui assina tornou-se amigo de Manuel Firmo, no seu último decénio de vida, e de sua tão simpática esposa espanhola Pepita, tendo sido hóspede em sua casa em Barcelona. O histórico tarrafalista faleceu na capital catalã em 2005, com a provecta idade de 95 anos!).
Em 1936, Manuel Firmo – barreirense que nunca abdicou dos ideais libertários, anarco-sindicalistas, anteriores aos comunistas - viu-se obrigado a deixar Portugal para escapar a prisão política no rescaldo do caso do barco Évora. Quando regressou ao Barreiro já na segunda metade dos anos 40 (depois de sua clausura no Tarrafal) muito admirado ficou quando voltou a ver o companheiro Felizardo. É que este – antes um magrizela – tinha engordado de maneira espantosa. E o Povo, em vista daquela tão anafada envergadura, deixara “cair o diminutivo”. Felizardo passara de “Buraquinha” para “Buraca”, para todo o sempre. Acentue-se, porém, que alguns cortavam a vogal “u” à nova alcunha trissilábica, pronunciando apenas - certamente para facilitar - “B´raca”. (Um outro à parte: quem aqui escreve também tem uma história para revelar sobre o “Buraca”. Em garoto, o dinheiro não nos abundava, e certa vez adquirimos um bilhete para a “geral” - lá atrás - do Cinema-Teatro, nos bancos corridos. Teríamos uns 12/13 anos. Aprendemos então, por amarga experiência própria, que o peixeiro “Buraca” era ... analfabeto. Sim, porque sentado ao nosso lado, estava um rapaz que lhe ia lendo ao ouvido as legendas do filme, o que diziam os John Wayne, ou as Doris Day. Ainda que pronunciado baixinho, os sentados ao lado ouviam perfeitamente. O pior foi que, naquela tarde, a “geral” estava mesmo repleta. Não dava para mudar de assento, pelo que lá tivemos que aturar a “seca”. O facto de o “Buraca” não saber ler, em nada, mesmo em nada – soubemos então - o impedia de ser assíduo cinéfilo. Mas pagava mais que os espectadores normais, pois que, para se inteirar do que diziam as “estrelas do nimas”, desembolsava sempre um bilhete extra a um “ponto”).    

3 - Camarrão até mais não

O Felizardo falava um camarro puro (até isso desaparece, o tão peculiar linguarejar, ou tagarelar, barreirense…). Pertencia à família das Florianas, gente numerosa, com membros que viviam desde a Travessa de São Francisco até à Sra. do Rosário, com  um núcleo importante a meio caminho, no Pátio dos Bichos. Conta-se que, uma vez, o camarrão “Buraca”, no Norte do País, não se conteve com a beleza em sua volta e exclamou para os seus companheiros de camioneta: “Avecês virem ver iste. Admirarem estas lindas paisadas!..”.  (Houve risada, as “paisadas” eram obviamente, as “paisagens”). Recorde-se aqui uma parente do Felizardo: a também simpática Floriana, de defeito de boca, o qual originou que ela fosse conhecida por “A Boca ao lado”. Morou nas imediações do Asilo D. Pedro V. Afirmava-se que era a intérprete do camarro mais castiço.

4 - A muralha. Os clamores dos golos

Amiúde, Felizardo não aguentava até ao fim os jogos do primeiro team do Barreirense, em especial  quando as “coisas corriam pelo torto”. Mais que uma vez perdeu as forças durante os prélios e deixou o Campo do Rossio estirado em maca dos bombeiros. Inúmeras vezes abandonava o campo na segunda parte dos jogos, e ia sofrer para a Avenida da Praia, andando para diante e para trás ao longo da muralha. Tentava adivinhar a situação do marcador pelas vozearias das claques. Mas, por vezes, não discernia a evolução do resultado, a incerteza era muita, e pedia a um miúdo que fosse até à entrada dos sócios, no jardim, a fim de saber ao certo “quantos havia”. Recompensava-o então com uma moeda.
Mais que um antigo aficionado do F.C.B. nos afiançou que, um dia, ocorreu um rendez-vous muito especial junto à muralha. Deu-se princípio dos anos 50, na I Divisão, com um treinador de fora, que durante os jogos se mostrava muito nervoso. O “Buraca” – que nas segundas partes dos jogos lá andava a passear os nervos ao longo das águas do estuário – não podia crer no que seus olhos viam, quando – durante uma daquelas suas situações de tormento - lhe apareceu o referido treinador. Felizardo terá exclamado: “Então sr. treinador, em vez de estar lá no banco a ver o jogo, vem para aqui sofrer comigo...?”
Agora uma que nos foi contada por Mário Nunes “Alfaiate”, histórico adepto do Barreirense, que possuia alfaiataria no Largo Casal, por baixo da Sede do seu Clube. Na época 1950/51, o Barreirense e o Lusitano de Évora degladiavam-se pelo acesso à I Divisão. Muitas centenas de adeptos do F.C.B. rumaram a Évora em 1 de Abril de 1951, de comboio, em veículos a gasolina, por ocasião de importante partida entre aqueles clubes. Incorporou-se uma camioneta organizada pelo “Buraca”. Colossal assistência! No princípio do jogo, os eborenses – senhores dum valoroso “onze” – encurralaram o Barreirense na sua defesa. O “Buraca” viu as coisas muito “mal paradas”, e a fim de não se sentir amargurado por golos do adversário, decidiu – o que nele era comum - deixar o terreno e afastar-se. 
Mais tarde, já longe, ouviu, por três vezes, enormes gritarias de alegria vindas do campo da bola. Ai..., o Lusitano a golear o seu Clube!  Começou a chorar convulsivamente. Transcorreram os 90 minutos, e as hostes dos rubro-brancos invadiram o centro de Évora empunhando bem alto as suas bandeiras, manifestando enorme contentamento pela vitória. O “Buraca” não queria acreditar... Afinal o Barreirense é que havia vencido por 3-0, com o primeiro golo aos 42 minutos! As lágrimas de desespero transformaram-se em lágrimas de júbilo. E o Felizardo - dando honras ao seu nome - manifestou a sua enorme felicidade, abraçando e beijando uns tantos que tinham vindo com ele do Barreiro.    

5 - Relações com as Direcções

O Felizardo sempre manteve boas relações com os directores do seu clube. Andava bem informado, era o adepto que mais estava ao corrente – por exemplo – se determinado jogador já tinha assinado ou não. (Ou quanto pedia para novo contrato). O “Buraca” adiantava (ou mesmo concedia) capitais ao Clube. Quantas vezes aparecia ele quando das reuniões de Direcção com um daqueles lenços de pescoço próprios dos pescadores onde ele depositara uma boa série de moedas, incluindo umas tantas das mais grossas... Um dia (esta ficou quase lendária), surgiu ele na Sede com um valente tacho provido de moedas e também com belo número de notas. Tratava-se de uma dádiva em ocasião de grande aflição financeira lá no Clube. Por outro lado – diziam alguns -  ele mostrava-se um “unhas de fome” para com a família.
Nas vésperas de jogos de “casa cheia” no Campo do Rossio – por exemplo quando das visitas do Benfica ou do Sporting – a Direcção do F.C.B. chegou a entregar bilhetes de entrada ao “Buraca” a fim de que ele os procurasse vender nos dias dos jogos a preços mais elevados. Após os jogos, ele fazia as contas com os dirigentes. Dizia-se...
Felizardo não era nem Penicheiro, nem Francês, não senhor, apenas (doido pelo) Barreirense. Falava muito, discutia muito, mas nada de radicalismos. Antes pelo contrário. A sua colossal gesticulação em nada o impedia de expressar uma opinião média da massa associativa. Era isso que pensava também nosso pai (que foi, por exemplo, Presidente da Direcção em 1956, ano da inauguração do Ginásio-Sede, e, durante anos, Director d´”O Barreirense”). Armando S. Pais bastas vezes se dirigia ao “Buraca” lá nas salas de bilhares das sedes para auscultar, por exemplo, a sua opinião sobre exibições e portes dos jogadores, sobre a capacidade do treinador ou a aceitação de alguma decisão directiva. O Felizardo, com o seu carisma, revelava-se como que a voz correcta da massa associativa. Há que não esquecer que, por várias vezes, as suas opiniões desportivas foram reportadas na imprensa lisboeta da especialidade.

6 - Rifas e apostas

O “Buraca” organizava rifas. Durante certo tempo, o primeiro prémio das rifas cifrava-se em aliciantes cem escudos. Tinha um fraco pelas apostas, constava ter ganho muito dinheiro com elas. “Eh, pá, eh... Vamos lá apostar!” – desafiava ele. “Dava avanço” de um, dois golos, ou mesmo de três... A haver aposta de montante elevado, “a massa” tinha que ir para a mão de alguém de confiança, como o Chico Moreira (“da Badana”, internacional do Benfica) ou o José Joaquim (que tinha duas alcunhas: “Saca-rolhas” e “Oficial”).
O nosso evocado chegou a aplicar um método muito seguro para nunca ficar totalmente desiludido com o resultado das apostas: arriscava que o seu Barreirense perdia os encontros... Por outras palavras: se o seu Clube ganhasse, ele não se importava nada de desembolsar quantias; caso o Barreirense saísse vencido, então pelo menos o aspecto monetário estava salvaguardado. 

7 - Organizador de excursões

Auscultando por aí ainda poderíamos fazer reviver tantos episódios, respeitantes ao excêntrico Felizardo... Também daqueles sucedidos com os clubes populares da vila. Ainda são lembradas intervenções suas nas Assembleias Gerais do Barreirense, também no épico Ginásio-Sede. Ele sempre foi muito respeitado pelos mesários, a despeito das graves biqueiradas que desfechava na língua portuguesa. Mas ali ninguém zombava. Ele como que constituia o F.C. Barreirense comum, expondo opiniões abalizadas.
Sim, nunca aprendeu o abecedário, quanto mais a gramática. Mas, apesar de perceber os algarismos, ele praticava uma contabilidade muito sua, que foi crismada de “pau e bola”. Os números eram constituídos por círculos e cruzes de diversos tamanhos. E também “pontos”.
E com aquela “insubstituível” contabilização de débitos e créditos organizou numerosas excursões de camioneta, tanto para acompanhar o F.C. Barreirense (fosse a Évora, Covilhã, Coimbra, Algarve, mesmo ao Minho), como até em excursões simplesmente turísticas. Neste aspecto, nos finais dos anos 40, já o Barreiro era terra muito progressiva (ou progressista).
(Nos princípios dos anos 50 organizavam-se mesmo bastantes excursões de Verão de mais de uma semana a Madrid, Málaga, Sevilha, em que viajavam, por exemplo, muitos simples escriturários da CUF. A Espanha ainda se encontrava muito debilitada em resultado da horrenda Guerra Civil. Viam-se funcionários espanhóis nos transportes públicos que trabalhavam de alpergatas a cair aos bocados. Havia quem se entregasse de braços abertos (!) por razoável quantidade de bom café, que era coisa inexistente em Espanha).
No Barreiro, depois dos pequenos burgueses, dos escriturários, não eram poucos os trabalhadores de fábrica que também passaram a gozar daquelas férias de camioneta pelo país vizinho. Porém, a maioria das passagens eram cobradas “aos soluços”... Mas não ficavam (como hoje se diz) “mal paradas”. Neste contexto poder-se-á perguntar: o analfabeto “Buraca” deixava-se enganar no controle (ou: no controlo) das cobranças das suas organizações? A resposta só poderá ser do tipo: “O quê? Alguém enganar o “Buraca”?. “Agora..., nem pensar nisso. Tudo batia certo...”. 

8 - A família. Muito estimado

Felizardo, que teve um descendente, foi casado com uma irmã de outra figura bem conhecida, Manuel Rodrigues Lima, conhecido por “Manuel da Sara”, corticeiro (que faleceu em 1965). Ao contrário de “Buraca” - que nunca passou das terceiras - “Manuel da Sara” chegou a jogar oficialmente na primeira categoria dos alvi-rubros. (Existe foto que o comprova). Outra figura bem popular do Barreiro era primo-direito do “Buraca”. Fala-se do “Corneta”, o bombeiro de quem o pessoal dizia atear fogos para ser o “primeiríssimo” a aparecer a atacá-los. (Oh, as más línguas... Vá-se lá saber...). O “Corneta” chegou a representar o Luso F.C. em primeiras categorias.
O nosso “Buraca” residiu em várias casas. Sabemos das seguintes: ali para a Travessa da Amoreira (a dois passos do Largo Rompana), depois na Rua Aguiar. Mais para  o final ainda residiu na Rua Marquês de Pombal (quase defronte do Clube 22 de Novembro). Aqui muito padeceu ele, o bom do Felizardo. Para nós, que tanto o estimámos, ainda bem que não chegámos a vê-lo com as pernas cortadas, movendo-se arduamente em cadeira de  rodas.
Oh, aquela dedicaçâo... Pelo seu, e nosso clube, ele era capaz dos maiores sacrifícios. Todos sabiam disso. E percebia mais de futebol do que muitos pensavam. Os seus brados de incitamento, as suas queixas,  ainda hoje são recordados por muitos dos mais velhos.
Felizardo recebeu o Diploma de Dedicação do Barreirense num 11 de Abril. A cerimónia ocorreu já no Ginásio-Sede (que ele também ajudara a tornar-se uma realidade, participando, em grande, por exemplo, nos lendários comboios da pedra). Lê-se no mensário “O Barreirense” (Vide foto) que a sessão solene de 1961 teve a presidi-la o convidado Baltazar Rebelo de Sousa (pai do actual político e jornalista Marcelo R. de Sousa). Baltazar bem admirado ficou com a estrondosa ovação (!) (bem nos recordamos) de que foi alvo Felizardo no momento em que lhe foi entregue o Diploma de Dedicação. Finda a sessão, Baltazar fez questão de apertar a mão àquele sócio tão estimado na vila-operária. Na realidade, o “Buraca” era como que a alma popular do Clube. E, em nossa opinião, também foi, dos “doentes da bola” do Barreiro, o mais “doente” de todos. Finalizamos acentuando: temos saudades do Felizardo e do futebol do seu tempo. Hoje, o “desporto-rei” mais parece comércio e indústria. Isso sabe-se, mas a maioria prefere não o admitir. Há muitos interesses envolvidos.
As datas do nascimento e do passamento do Felizardo? Ainda não as sabemos, por dificuldades de vária ordem. Ele era de idade semelhante à de seu amigo Manuel Firmo (também barreirense, vindo ao mundo em 1909). Afiançaram-nos que o nosso “Buraca” se despediu para sempre da família, e do seu Barreirensezinho, nos anos 70. Logo que nos confirmem as duas datas que faltam, procuraremos integrá-las no presente texto. O Felizardo foi emblemático, sim um emblema do Barreirense. Ele não pode ser olvidado...
Posfácio: Após inserção desta biografia, este autor foi informado de que Felizardo H. da Cruz faleceu em 14-02-1975 com 65 anos.
9 - Figuras populares do futebol de antanho
Não escasseavam as figuras populares ligadas ao desporto, em especial ao futebol (e ao basquete) lá na vila dos meados do século 20. (Anote-se que Mário Solano, o “Lá-Vai”, a figura popular sempre entregue a relevante actividade social – já incluído no primeiro grupo destes Vinculados – “não ia em futebóis”. É verdade... Gostava, porém, de oferecer presentes aos atletas, em especial em festas de despedida e/ou homenagem).   
Recordemos agora alguns outros relevantes vultos populares (todos com alcunhas) do desporto daquele tempo. O Henrique Afonso Chaves, mais conhecido por “Manipanso”, era um deles. Natural de Setúbal, veio cedo para o Barreiro, afeiçoando-se muito ao Barreirense. Era o chefe da “claque”, com posto certo na parte inferior, ocidental, da bancada de madeira pegada ao jardim. Com o seu chapéu de chuva negro – fizesse sol ou não -  dirigia de pé, qual chefe de orquestra, o coro dos fans do Barreirense. (Naquela área juntavam-se as muitas, entusiásticas, sócias, vestidas de saias, claro, que chegavam em pequenos grupos, por norma de braço dado. Também incitavam em coro). Algumas vezes o Henrique Chaves “Manipanso” não apareceu nos jogos no Campo do Rossio. Algo grave acontecera! Era em geral. – dizia-se! – quando ele tentava emigrar de novo, de modo clandestino, para o Brasil, onde vivia uma irmã. Para seus males – dizia-se! – ele era descoberto a bordo após a partida do paquete e lá voltava ao Barreiro, como incansável vendedor de rua e comandante da “claque” da bancada lateral do F.C.B. Corriam então os anos 50. Outra figura inconfundível era o António Joaquim Barbudo, de baixa estatura, conhecido por “Toino Anão”, algarvio de nascimento, mas mais barreirense que muitos camarros. De início, o Toino ganhou a vida vendendo cautelas, depois trabalhou nos Serviços Municipalizados (limpeza de autocarros), graças a uma “cunha” de um muito malquerido sócio do F.C.B. O “Toino Anão” foi não só bem conhecido adepto encarniçado do Barreirense que passava horas e horas no café do Ginásio-Sede e, já de idade avançada, lá se acomodava e dormia a sesta. Também se revelou figura muito grada dos Franceses, em especial como impagável revisteiro na época do Carnaval.
Vulto popular do Barreirense era também o Zé Fragata, o inconstante Fragata “Maluco”, operário da CUF e irmão dum grande senhor (!) do Clube. Em jovem tinha sido acometido de ataque cerebral, mas tal não o impediu de professar o seu “barreirensezismo” de modo impoluto.  Até que... Até que na tarde de 5 de Julho de 1959  ele tomou uma decisão das mais “amalucadas” que imaginar se podia no Barreiro daqueles tempos. Naquela data, o F.C. Barreirense (de José Augusto, Faia, Silvino, Júlio Abrantes, Faneca, os argentinos Arturo e  Godoy, etc.) perdeu contra o Boavista, no Porto, o último encontro a contar para o Torneio de Apuramento e viu-se relegado para a II Divisão. Tal provocou desmesurado choque (!) no Zé Fragata, que naquela precisa tarde deixou de ser “doido” pelo Barreirense, convertendo-se em ferveroso adepto do Desp. da CUF, que continuou a militar na I Divisão. O Fragata passou a ser muito gozado, em especial no Parque, mas não se demoveu. Voltou as costas ao F.C.B. Não dava para entender...
Mas as “figuras populares doentes da bola” não ficavam somente pelos do Barreirense. Também existiam no Luso Futebol Clube. Ainda estão em boas memórias os incitamentos estridentes da autoria do “Gaiato”, como por exemplo os ”Luso em Pé!” ou “Vamos a eles rapazes do Luso”. (O “Zé Gaiato” como que personificava os azuis e brancos). Mas caso único no Barreiro era o ”Manel Coxo”, engraxador, que relatava em alto vozeirão os jogos do seu Luso, tanto de futebol, como de basquete. Mais na modalidade da bola-ao-cesto, lá na também epopeica Sede do Luso, os espectadores podiam ouvir suas transmissões in loco - ou como hoje se diz, “ao vivo” - do tipo:A bola ressalta para as mãos de Porfírio, que dá a Piteira, este passa a Tanganho, que dribla dois adversários e dá a Cabrita, que lança e... mais dois pontos para o Luuuuso!”. Enfim, tempi passati..., que de certeza não voltarão mais ao desporto do Barreiro.

 
     
 
 
   
FELIZARDO “BURACA”
ILUSTRAÇÕES E IMAGENS