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Maria Neves da Silveira (1880-1954)
Professora primária, primeira jornalista do concelho, poetisa, pianista

1 – Professora primária particular
2 - A primeira jornalista barreirense era ... do Lavradio 
3 - Pianista
4 – Poetisa; “Salvé à minha terra! Salvé ó Lavradio!” 

 
 

Maria Neves da Silveira, nascida no Lavradio em 28 de Abril de 1880, foi figura de grande relevo local, professora primária particular, mulher das letras e da música. Revelou-se a primeira jornalista a escrever com assiduidade na imprensa do concelho do Barreiro.
No presente trabalho iremos basear-nos bastante em página que assinámos no “Jornal do Barreiro” de 9 de Maio de 2003. Na “Barreiro Contemporâneo II”, volume de 1968, o historiador local Armando da Silva Pais referiu-se a Maria N. da Silveira como tendo sido uma “excelente professora, que foi colaboradora de jornais do Barreiro, onde publicou muitos artigos sobre aspectos morais e educativos e algumas interessantes poesias. Faleceu a 2-V-1954 com 74 anos”. (Infelizmente não constou um retrato desta senhora).
De lavradienses obtivemos valiosos elementos biográficos de Maria da Silveira, em especial da parte de nosso já saudoso amigo Manuel Ventura “da Romana” (1922-2008), que mantinha em enorme apreço a antiga professora. Foi um dos primeiros educandos dessa mestra a ser aprovado na quarta classe com exames na Escola Conde Ferreira, Barreiro.
Na primeira parte da vida, Maria da Silveira viveu bons anos em Vila Franca de Xira, de onde era natural seu marido, João Picão. Afirmava-se que ela, já casada, chegou a viver, por pouco tempo, em Angola. “Prova disso” – afirmaram-nos - seria um cavalo-marinho, de fibras africanas, que ela teria trazido de lá, e que ministrava em casos extremos em algum aluno que “passasse muito os limites”. Quando em 1925 regressou ao torrão natal, Maria da Silveira passou a ser apelidada de “Maria de Vila Franca”.
Esta rememorada - filha da parteira Emília (Neves da Rocha Silveira), natural do Lavradio - residia com a mãe e leccionava (também música, bordados, etc) numa casa de rés-do-chão onde hoje se encontra o prédio com o n° 22 da Rua França Borges, antes vulgo Rua do Poço.
Maria da Silveira veio a dedicar-se muito às sociedades lavradienses, onde abrilhantava festas ao piano. Deu mesmo aulas no Sporting Lavradiense. E na SFAL chegou a fundar uma pequena companhia de teatro amador.  

 
 
 

1 – Professora primária particular

A professora particular Maria da Silveira mostrava-se muito carinhosa e empreendedora  para com os jovens, o que não invalidava que em casos de cabulice, ou de abuso, não se servisse também de uma “menina de cinco olhos”. (Um à parte: Com umas palmatoadas adequadas e instrutivas, talvez a disciplina e o aproveitamento escolares andassem, no sec. XXI, melhor e não houvesse tantos professores enervados e derreados a meter baixa...).
Maria da Silveira era uma patriota. Todos os 1° de Dezembro, Dia da Restauração, convocava ela seus alunos para os bancos da aula, a fim de proferir uma exaltação patriótica. Manuel Ventura também se recordava de que visitara pela primeira vez os Jerónimos e o Aquário Vasco da Gama em avultada excursão empreendida por sua professora Maria da Silveira; isto nos princípios da década dos anos 30...

2 - A primeira jornalista barreirense era ... do Lavradio

Temos que inferir que Maria Neves da Silveira foi a primeira jornalista do concelho do Barreiro. A existir outra senhora (deste concelho ou não) que tivesse publicado nos jornais barreirenses anteriormente a 1925, então praticamente apenas sob pseudónimo, e muito episodicamente. Maria da Silveira assinou artigos na imprensa local com regularidade durante mais de duas décadas a partir de Outubro de 1925.
Alguns dos mais velhos ainda se poderão recordar dos esplêndidos textos da barreirense Maria Esther Mongiardim da Costa Figueira (1890-1970) em “O Barreiro” (que existiu de      1932 a 1946), ou no início do “Jornal do Barreiro” (fundado em 1950). A saudosa senhora Maria Esther era dez anos mais nova que Maria da Silveira, realmente começou a colaborar bastante na imprensa, mas anos mais tarde que a lavradiense.
Pelos vistos, Maria da Silveira era uma mulher dos “sete ofícios”, dedicando-se a actividades bem diversificadas... Transcrevamos a curta local (não assinada) do “Eco do Barreiro” de 15-10-1925. (Respeita-se a ortografia).  
Uma distinta colaboradora. Começa hoje a honrar as colunas do nosso jornal a Exma. Sra. D. Maria Neves da Silveira ilustre senhora que é natural da vizinha vila do Lavradio e que dali tem estado afastada há muitos anos.  Esta senhora, que dispõe duma vasta ilustração, é professora de instrução primária, português, francês, hespanhol, italiano, música – piano e bandolim – desenho, pintura, rendas, bordados e toda a arte aplicada e de fantasia, podendo também ser utilizados os seus serviços como pianista para bailes ou em animatógrafos. Tem a sua residência no Lavradio. O “Eco do Barreiro” muito se honra com a sua adesão, que agradece”.
O primeiro artigo de Maria da Silveira nas colunas do “Eco do Barreiro” surge, portanto, naquele 15-10-1925. Tem por título “O Outôno”, redigido num português simplesmente soberbo. (Vide imagem anexa). Encontrámos bem interessante colaboração desta senhora profundamente católica n´ ”O Povo do Barreiro”. Este foi um semanário “republicano, defensor do Estado Novo” em tempos difíceis (1934/36), mas de importantes obras públicas também no Barreiro. Por exemplo, no artigo “De vento em popa” (28-5-1935), a jornalista saúda os que então “numa directriz obstinada impeliram a Pátria, à feição do Progresso, arrancando-a àquele caos de abatimento, desafectos e interesses que a oprimiam e molestavam”. N´ “O Barreiro” detectam-se, até 1945, bom número de artigos de Maria da Silveira.
Uma obra sobre a imprensa algarvia informou-nos, por acaso, que a nossa biografada escreveu também n‘ “A Avezinha”, publicação católica,literária, educativa, que  se publicava em Faro. (Note-se que uma sua conhecida bela, longa, poesia, chama-se precisamente “A Avezinha”). Tudo nos leva a crer que Maria da Silveira, um tanto avançada para o seu tempo, teria feito o gosto à pena na imprensa antes de 1925. Mas em que gazetas não barreirenses?

 

3 - Pianista

Como já referido, utilizavam-se os serviços da pianista Maria da Silveira para bailes e animatógrafos (isto é: em sessões de cinema mudo). Há poucos anos solicitámos ao Dr. João da Costa Figueira (1915-2009) que nos revelasse, em poucas palavras, a sua opinião sobre a prof. Maria N. da Silveira. Anotámo-la: “Era uma simpatia de senhora, aparecia em festas como pianista. Pessoa de muito carinho, o que não quer dizer que, como professora, não desse com palmatória”.
Maria de Lourdes Costa Mano, nascida em 1914, mãe deste cronista, pianista diplomada no Conservatório, ainda bem se recordava dos belos dotes de pianista de Maria da Silveira.
4 – Poetisa; “Salvé à minha terra! Salvé ó Lavradio!”
De artigo da autoria do insigne jornalista Alfredo Zarcos, publicado em Novembro de 1950 no “Jornal do Barreiro” transcrevemos: “D. Maria Neves da Silveira ... , hoje recolhida a uma vida privada, repartiu pelas duas bibliotecas da sua risonha terra, obras inéditas e sem jamais na sua quase totalidade terem visto a luz do dia. E mereciam sobejamente que alguém as fizesse reunir num volume e as tornassem assim conhecidas ... esta senhora possui uma vasta obra, grande parte da qual, dispersa  por jornais e revistas do País ... não obstante a sua provecta idade, mantém ainda, sempre que a sua abalada saúde o permite, o gosto muito vivo pelas letras.
Pessoa amiga fez chegar às nossas mãos, um dos livros de sonetos de .... (Maria N.S.)  que acaba de oferecer às bibliotecas da sua terra natal – o Lavradio. Antecede-o um formoso prólogo que é todo um hino de amor à terra que lhe serviu de berço. ... (E citando ainda).“Antepondo, pois, ao teu gosto já depurado, o meu pobre livro de sonetos, que te dedico como humildes migalhas que um pão que eu desejaria multiplicar para tua luz e avanço na senda do progresso – o Pão da instrução.... Num dos sonetos cantaria em verso ao seu Lavradio: “Salvé à minha terra ... viver longe de ti foi meu tormento, a ti voltei cumprindo a predição,... em horas de desgosto e sofrimento...”. (Vide em imagem anexa).
No escrito, lê-se o título da obra como “Revéboros”, o que será um erro tipográfico. Terá que ser, sim, “REVÉRBEROS”, termo que - consultando um dicionário - poderá estar como significando “reflexos, focos de luz, resplendores”.
Quando se achará um exemplar do livrinho? (Livrinho este certamente de manuscritos, ou de páginas dactilografadas). A discorrer da qualidade das peças poéticas divulgadas na imprensa em vida da autora, os referidos sonetos constituirão uma preciosidade... A cultura barreirense bem merece que todos esses versos venham a ser encontrados, e editados... 
Para concluir tomamos a liberdade de transcrever as últimas elocuções de um extenso e bem bonito texto intitulado “O Lavradio Parou” que o lavradiense João Saraiva dedicou à memória da professora e pedagoga sua conterrânea: “...esvoaçou uma folha com alma de rima, mas da Quinta da Fonte à Quinta do Prazo, e da Rua de Baixo à Rua de Cima, o Lavradio não esquece a professora inquieta que doou ao povo uma escola inteira. Na poesia do Céu, há mais um poeta! MARIA NEVES DA SILVEIRA!
A Câmara atribuiu, em 30 de Janeiro de 1970, o nome de Maria Neves da Silveira a bonita praceta do Lavradio (ali à igreja de Santa Margarida).
A nossa evocada estará algo esquecida na cidade do Barreiro, mais que imerecidamente. Mas não o está no Lavradio!... E isto não só no que respeita aos seus antigos alunos e suas famílias. Lemos algures que têm sido atribuídos “Prémios Maria Neves da Silveira” na SFAL,  para contos, quadras populares e poesia livre. Excelente!..
Nota: Este escriba – com profundas raízes lavradienses que vão pelo menos até ao “Patacas”, alcunha por que era conhecido nosso tetravô Manuel Rodrigues dos Santos e Silva, devido a negócios com o Brasil nos tempos dos Reis D. João VI e D. Miguel, o que daria origem à artéria Beco do Patacas – sentiu o maior prazer em haver redigido o presente texto.