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JOAQUIM MADUREIRA “BRAZ BURITY” (1874-1954)
Juiz, escritor, jornalista, crítico de arte, panfletário

1 – O literato cáustico até mais não...  
2 – Enaltecendo os desenhos de A. Marinho,  e “malhando” nas xilogravuras de M. Cabanas
3 – Ainda o  Barreiro. O moínho do Jimes e o legado que se desfez. A Bonecaria  
4 – A jurisdição. A bibliografia
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Joaquim Madureira era natural de Lisboa. Exerceu jurisprudência. Assumiu-se como brilhante homem de letras a nível nacional. Um dos seus pseudónimos de panfletário tornou-se famoso: “Braz Burity”.  

1 – O literato cáustico até mais não... 
Este evocado sempre se achou na obrigação de combater, sem piedade, quem ele julgasse ser medíocre nas artes, na escrita, no teatro. A utilização de termos críticos dos mais cáusticos, a violência das suas palavras provocou-lhe não poucas inimizades.      
Republicano desde sempre, já a polícia monárquica apreendera publicações da sua autoria. Mas, na infeliz I República, por ter colaborado com o Presidente Sidónio Pais, criou antipatias em especiaI nos camaradas (ditos) democráticos de Afonso Costa.  

2 – Enaltecendo os desenhos de A. Marinho, e “malhando” nas xilogravuras de M. Cabanas
O dr. J. Madureira residiu por dois períodos no Barreiro, somando mais de vinte anos. Desposou a barreirense Emília “Bibi” Nicola (tia paterna do inesquecível Jacinto Nicola Covacich), ambos em segundas núpcias, num romance avassalador. Deixou descendência radicada na vila.
Chegou a colaborar com assiduidade no semanário O Barreiro, sendo muito amigo do Director Aníbal Pereira Fernandes. Deixou escrito que ao Barreiro lhe “prendiam vivas impressões de infância e queridas recordações de mocidade”. E essa terra “é aquela que, se de raiz e nascimento não é minha, é aquela a que, de estaca e coração, mais quero e mais me sinto preso”.
Madureira era conhecido por utilizar termos críticos dos mais mordazes. Malhava duro e feio, fossem os criticados amigos ou não. Que o dissesse Manuel Cabanas, que uma vez teve que engolir “sapos vivos” em resultado de uma crónica de “Braz Burity” em “O Barreiro” de 7 Maio de 1942.
Dessa vez, Madureira decidira debitar elogios à arte retratista do pintor barreirense Américo Marinho, que acabara de arrancar, com três desenhos de mulheres, uma segunda medalha numa Exposição da Sociedade Nacional. “Toda a arte do Barreiro é Marinho”, escreveu Madureira, “esquecido já o mudo Rafael Pimenta… que na gravura foi gente”. Choveram termos encomiásticos sobre os talentos de Marinho. Assim como conselhos e exortações….. Inesperadamente, porém, Burity, aplica uma valente “cachaporrada” nas gravuras de madeira de Manuel Cabanas. Cita-se: “-Marinho, deixe-se de modéstias, de óleos, de paisagens e de tretas. Desenhe retratos, muitos retratos… Mande ao diabo xilogravuras em miolo de figueira e mais bodegas de quem as faz! Desenhe sozinho, desenhe só para si, mas desenhe sempre…”.
Imaginamos o que terá sentido o bom do Manuel Cabanas ao deparar com estas “pérolas” de “Braz Burity”. Leve-se em conta que Cabanas havia já honrado o contundente crítico Madureira com um primeiro retrato xilográfico em 1939. (Desenho, claro está, de Marinho. Vide anexo)!  Razão tinha Cabanas que num dos seus cartões de ficheiro apelidou Madureira de “iconoclasta”. (O termo do grego que significa, como é sabido, “destruidor de imagens”).

 

3 – Ainda Barreiro. O moínho do Jimes e o legado que se desfez. A Bonecaria  

Um tremendo imbróglio iniciou-se em 23 Março de 1936 quando Madureira em carta (de texto divulgado) dirigida ao Presidente da Câmara, Joaquim José Fernandes, anunciou querer legar à vila onde residia, as suas preciosas biblioteca, de 2.500 livros, e pinacoteca, de 120 quadros.
As colecções ficariam em exposição no histórico moínho do Jimes (ou James, ou Jim, ou Gim) e numa edificação anexa a construir. (Assinale-se que o moínho era então pertença de particulares).
O doador punha como condições ficar como conservador do futuro Museu e usufrutuário, com sua esposa, do histórico moínho do Jimes. Outra  condição consistia em o seu espólio só passar à posse definitiva da Câmara por morte do último sobrevivente do casal.
O Presidente da edilidade, J. J. Fernandes, desde sempre se mostrou interessado. Já o mesmo não aconteceu com o seu sucessor, a partir de Março de 1937, o dr. Lima de Albuquerque, que – sob influência de intrigas locais - pôs de lado o projecto. Decorria a sangrenta Guerra de Espanha...  Uma “revolução palaciana” na Câmara fez regressar o Presidente J. J. Fernandes em Outubro de 1939. Este reafirmou - logo em 19 de Novembro quando da abertura de uma exposição de Cabanas no Clube 22 de Nov. – que aceitaria em definitivo a doação. Tal foi consumado dias depois. (Note-se que as peças da possante doação já se encontravam na casa do escritor no Barreiro, Rua da Praia, ou eng. Duarte Pacheco, 7 -  1°).
De acordo com a biografia de Cabanas publicada no opúsculo editado pelo Museu República e Resistência, em 1993, o Barreiro teria perdido o espólio porque o “Estado desprezou o valioso património (pag. 15). Tal não é verdadeiro, o que se explica mais adiante...
Formou-se o “Grupo dos Amigos do Museu-Biblioteca do Barreiro” (Presidente: Américo Marinho), grupo esse composto por intelectuais barreirenses de todos os quadrantes ideológicos que tinha por objectivo ajudar a levar a bom termo o caso do espólio de J. Madureira. (Estamos de posse de material, bem histórico, referente a este processo, que João Azevedo do Carmo ofereceu a seu amigo Armando S. Pais...).
Chegou a haver uma reunião abrasadora sobre o tema entre Américo Marinho, Manuel Cabanas e dois ministros. Mas a coisa melhorou... O pintor A. Marinho, inspirado em ideia do Ministro da Educação, dedicou-se de alma e coração no sentido da criação dum Museu na vila. Na segunda parte de 1939, o “processo Museu” estava finalmente no bom caminho. Tratava-se já de obter uma casa provisória. (Madureira também já  abandonara a ideia de residir no moínho do Jimes, até devido ao moroso litígio judicial com os proprietários que se opunham à expropriação do dito edifício e do terreno circundante que também lhes pertencia).
Em Outubro de 1939 - a pedido do “Grupo dos Amigos” - Joaquim Madureira renovara a oferta. Todavia, semanas depois  – de novo residindo no Porto e com surpresa geral  – “retirara de uma vez para sempre a proposta de doação”, alegando ser conhecedor de “falsas acusações” feitas a entidades oficiais.
Manuel Cabanas, em representação do “Grupo dos Amigos”, (vide carta anexa de 14-3-1940) ainda se deslocou à Cidade Invicta. Afirma o documento que Manuel Cabanas “avistou-se com esse fim no Porto” com Madureira para tentar demovê-lo da sua decisão, mas essa sua acção “resultou improfícua”. E com aquela carta endereçada pelo “Grupo dos Amigos” ao Presidente da Câmara (vide anexo), deu-se por extinto o “Grupo”.  
A causa última do revés foi, portanto, a mudança de ideias por parte do caprichoso “Burity”, que retirou a doação… Para a cultura no Barreiro tratou-se de uma tremenda frustração… Esta é que é a verdade histórica, e o “Grupo dos Amigos” passou ... à história. O proprietário Madureira veio a vender as suas colecções em vários lotes, que assim se dispersaram. Meses depois, membros do desaparecido “Grupo”, entre outros, fundaram, no Café Barreiro, o “Cenáculo Barbosa du Bocage”, que também iria dar muito que falar. (Neste âmbito, o presente autor está de posse de elementos únicos).
(Um à parte: O Barreiro também perdeu - na II República – a grande parte do património artístico de Manuel Cabanas, que – de início - foi integrada em Museu-Galeria no edifício da Câmara Municipal (!) de Vila Real de Santo António, Museu-Galeria esse aberto ao público três semanas antes do 25 de Abril de 1974 (!). Na presente República, o Barreiro também lhe viu escapar a grande parte do espólio do arq. Joaquim Cabeça Padrão, que ele desejava doar à sua terra natal, mas que acabou por cedê-lo à vizinha vila do Seixal. Em suma, muita pouca sorte do Barreiro...).     
Quanto a Joaquim Madureira... Depois de desfeita a doação, ele ainda participou num investimento no Barreiro com seu grande amigo Cunha Leal, com Alegria Morato (sogro de Jacinto Nicola Covacich), entre outros. Refere-se aqui, a criação, em 25 Setembro de 1941, da “Bonecaria Portuguesa, Lda.”, que fabricava – em prédio da Rua Miguel Pais n° 87 – bonecos de pano para os Armazéns do Chiado. Mas a sociedade poucos anos durou.

4 – A jurisprudência. A bibliografia

J. Madureira estudou Direito na Universidade de Coimbra. Por fim também exerceu a jurisprudência no Tribunal da Relação do Porto quando do regime do Estado Novo, ao longo de mais de um decénio, mas foi afastado devido a um episódio político. Quantas vezes incoerente, quase no fim da vida trabalhou para a Fundação da Casa de Bragança (!). De si próprio, ele escreveu ser (“O Barreiro” de 25 de Jan. de 1940) um “desmancha-prazeres, empata-vasas e espirra-canivetes e ter arrevesado feitio”. O vulto em regra truculento, de escrita tantas vezes de sabor acre, com palavras parecendo pedradas, pereceu em 18 de Setembro de 1954, no Porto, com 80 anos de idade. Descansa para sempre em Leça da Palmeira.  
Foi autor de numerosos folhetos. Temido crítico, assinou textos em relevantes jornais e revistas, por último n’ “O Diabo”, de que chegou a ser director. O escritor vigoroso e fecundo tornou-se autor de uma vintena de volumes de prosa vibrante. Serão mais conhecidas as obras: “Caras Lavadas – Gente Limpa”, 1909; “Na “Fermosa Estrivaria”, 1912 (vide anexo); “De Esguelha – Perfis Contemporâneos”; “A Forja da Lei”, 1915, de quase 700 pag. (vide anexo); “Impressões de Teatro”, 2 vol., 1903-1934 (vide anexo).    
PS – A personalidade do estravagante dr. Madureira, tão ligado ao Barreiro, mas hoje tão olvidado, senhor de prosa enfeitiçada, é algo fascinante. Isto sente desde há bons anos quem aqui assina. Já em 5 de Julho de 2002 divulgámos um artigo nosso em página inteira do “Jornal do Barreiro”, com duas xilogravuras de Manuel Cabanas. Reproduzimos agora, em anexo, as imagens dessas duas peças de madeira...