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AQUILES DE ALMEIDA  (1880 – 1960)
Funcionário público, encenador, autor teatral, compositor, poeta

Há que rememorar Aquiles Eugénio Lopes de Almeida (na ortografia antiga: Achilles d´Almeida), nascido em Figueiró dos Vinhos, 25 de Março 1880. Funcionário público, foi colocado no Barreiro ainda na Monarquia (1908), vindo a exercer, durante muitos anos, o cargo de Tesoureiro da Fazenda Pública da CMB. Os seus dois filhos nasceram no Barreiro. O primeiro filho faleceu na vila, onde ficou sepultado. Em 1935 Aquiles deixou o Barreiro, sendo depois colocado em Caminha, onde exerceu cargo idêntico. Esta prestigiosa figura terminou a sua existência naquela localidade minhota em 27 de Junho 1960. Aquiles de Almeida também conquistou um lugar – e de que maneira… – na história de Caminha.         
A cultura barreirense muito ficou a dever a Aquiles de Almeida, que levou à cena para além da revista „O Olho do Cuco (1934), de tremendo sucesso, a „Na Terra do Carcanhol“ (1933) também de bom êxito, e outras peças de teatro locais, como „Maldita Carta“, „Ah!... Oh!...“ (1926), „Hora e Meia no Barreiro“. Compôs o Hino do F.C.Barreirense.
Aquiles também escreveu a letra de uma „Canção de Saudação“, apresentada em histórica recepção ao General Óscar Carmona, Presidente da República, que em 5 de Novembro 1933 visitou oficialmente o Barreiro, acompanhado, entre outros, de Oliveira Salazar, Presidente do Conselho e de Duarte Pacheco, Ministro das Obras Públicas. Foi um dia de relevantes acontecimentos na vila.

„O Olho do Cuco”

Realmente, o grande obreiro da revista teatral „O Olho do Cuco“ foi Aquiles de Almeida, que  a musicou e também escreveu. Ele sempre contou no Barreiro com a colaboração de seu filho, António Vitorino, futuro advogado, que consta como co-autor daquela peça. “O Olho do Cuco”, de sabor também local, foi – sempre afirmaram conhecedores - o mais retumbante dos espectáculos teatrais do Historial do Barreiro. Realizaram-se duas  representações, em 4 e 5 de Abril 1934, com mais de 2.000 espectadores. Assistiam-se a dois actos e 22 quadros (!),  que foram à cena no Teatro-Cine Barreirense. Apresentaram-se três actrizes muito populares dos palcos lisboetas. Também participaram, duma assentada, os seis mais categorizados amadores masculinos do Barreiro. À frente deles, como compère, o insuperável Herculano Marinho.
As artistas que vieram da Capital chamaram-se Mary Laura, Deolinda Macedo e Judite de Sousa, já um tanto seniores, mas sempre famosas. Acompanharam-nas algumas girls (se se quiser, coristas) do Parque Mayer. Para além de Marinho, ainda entraram em cena Viriato de Almeida “Valadares”, Sebastião Gomes (pai de Carlos Gomes, que se tornaria enorme às das balizas de futebol), Filipe Pantoja e Eduardo Varandas. Também não podia faltar o cómico Augusto Quintino “Catapirra”, com seu queixo de rabeca e pernas que desengonçavam.
Na parte musical, sob a regência do maestro Alfredo de Carvalho, intervieram Maria de Lourdes Costa Mano (ao piano), Francisco Costa “Feio (violino), o lavradiense Artur Couto (rabecão), Mário Lopes (concertina), mais dois “exímios músicos” dos Franceses, de apelidos Araújo e Xavier (trompete e saxofone). Desconhecemos se ainda existem as partituras. As três bandas do Barreiro (Franceses, Penicheiros e CUF) executaram peças de Aquiles. Não se perderam os nomes dos 22 quadros, com os respectivos protagonistas. Títulos de alguns dos quadros: “Folhas”, “Fumo do Ópio”, “Argueiro no Olho”, “Não cabe”, “Os Ratinhos”, „O Cabaret”, “Veneno dos Lábios”, “Máquina da Verdade”, “Hás-de chorar por mim”, “Baile”, “Cócegas”. E também a „Água Fresca de Coina“, que era obviamente alusão às obras programadas da captação da água do rio Coina, infelizmente protelada pela I República. A preciosa linfa do Coina chegaria canalizada à nossa vila „do Carcanhol“ em 1937. Os barreirenses iriam ter em breve, em casa, aquela óptima água. Já não era sem tempo...
As receitas do “...Cuco” reverteram para a Creche Bento da Silva Fernandes, na Rua Miguel Pais. O patrono lamentou depois, na imprensa, que as receitas, por fim, pouco iriam superar os 300 escudos. A despeito das boas vontades, sucederam muitas despesas… As coristas tiveram soldo, embora não elevado, e os preços de entrada eram módicos. Fora dispendioso mandar vir os cenários de Lisboa, mas ele congratulava-se com o grande êxito e agradeceu a todos. Bento da Silva Fernandes, militar que lutara na I Grande Guerra, foi laborioso realizador, mas um super rígido superintendente da Câmara do Barreiro (1928-1935). 

 

Depõem uma artista e a pianista

Sobre a realização teatral „O Olho do Cuco“ - que se tornou um mito barreirense – valerá a pena recordar aqui afirmações de duas participantes. A artista Deolinda de Macedo, creadora em Lisboa dum „dueto célebre“, e que agora interpretara o quadro „Água Fresca de Coina“, afirmou ao semanário „O Povo do Barreiro“ (15-4-1934): „tudo muito bem feito. A primeira representação foi uma verdadeira première… este público do Barreiro é muito exigente e sabe apreciar… foi por gostar de vir representar nesta terra, que acedi a entrar nesta revista. … não deixa de ser maçada as idas e vindas entre Barreiro e Lisboa por causa dos ensaios e por fim não se tira o verdadeiro lucro. … os artistas amadores (de cá) têm todos muita habilidade. Isto não podia correr melhor“.       
Agora no respeitante a Maria de Lourdes Costa Mano, filha de comerciante da Rua Aguiar, que – já se disse atrás – foi a pianista daquela revista (e da „Canção de Saudação“ ao Gen. Óscar Carmona e acompanhantes). Tinha ela 19 anos, era então estudante do Conservatório. (Concluiria o Curso Superior de Piano em 1937). Um dia, com 90 anos, recordou testemunhos, mesmo de „bastidor“, alusivos ao “…Cuco“: “A Mary Laura, a artista principal, já estava no fim de carreira, e um pouco dura de ouvido. Notei que não existia simpatia entre o maestro Carvalho e ela, certamente do tempo em que ele pertencia à classe artística de Lisboa. Na estreia, a orquestra começava a desviar a música quando ela cantava, mas eu peguei-me à Mary Laura, que no final me veio agradecer muito. Recebeu grandes ovações. A Deolinda Macedo e a Judite de Sousa, antigas estrelas, já estavam “duras”, só actuavam em espectáculos de beneficência. Aquilo acabava à uma e tal. Foi um êxito enorme”. E por aqui ficamos quanto a este tão histórico evento cultural camarro.  
 

A „Canção de Saudação“

Como dito atrás, Aquiles de Almeida escreveu  a letra da „Canção de Saudação“, ou „Canção de Boas Vindas“, estreada na recepção ao General Carmona que, com larga comitiva, visitou oficialmente a vila-operária em 5 de Novembro 1933, relevante data para a História do Barreiro. Relevante porquê? Porque nesse dia foi colocada, em local da vila-industrial, a primeira pedra para as novas oficinas dos Caminhos de Ferro… (No Barreiro muito se temia que tais oficinas viessem a ser construídas, como se afirmava, noutro concelho do distrito). Naquele dia de 1933 também se inaugurou a cobertura do Mercado 1° de Maio, que na I República, por falta de verba, apenas ficara com paredes.
Reporte-se que após a sessão nos Paços do Concelho, fora inaugurado o Lavadouro da vila, com 58 tanques. Esta acção ganhou fama pois bom grupo de meninas vestidas a preceito, cada uma em seu tanque, cantaram em bonito coro - acompanhado a piano e orquestra - a „Canção da Saudação“ a Carmona, Salazar e Duarte Pacheco, musicada pelo maestro Alfredo de Carvalho. Aquiles de Almeida tinha sido o autor da letra da melodia. Esse bonito texto, agora levado a esquecimento, será reproduzido mais adiante a partir de longo escrito autobiográfico oriundo de Bento da Silva Fernandes.
Neste contexto deve-se assinalar que em 1997, Santo André, Barreiro, homenageou Aquiles de Almeida, o extraordinário amador da cultura local, atribuindo seu nome a uma rua. Claro que tal foi uma magnífica decisão (!). Mas em vista do que aqui se relembra no tocante ao texto da letra cantado em coro pelas meninas „lavadeiras“, em trajes regionais, em honra daquelas personalidades, inaugurando os tanques do Lavadouro Público da Vila Manso, que era ali próximo da Escavadeira, pode temer-se que aquela deliberação de 1997 passe a ser considerada um ponto fraco, vulnerável, como que um „calcanhar de Aquiles“ toponímico. E que, por isso, aquela deliberação venha a ser revogada no nosso Barreiro. Espera-se que tal não venha a acontecer...   

O Hino do Barreirense

Esta notável figura que recordamos também foi autor da letra e música do lindo – repete-se - lindo Hino do Barreirense. Há bom número de (antigos) adeptos, simpatizantes do Futebol Clube Barreirense que sabem de cor pelo menos a primeira quadra do Hino e também entoam a melodia. Mais adiante será reproduzida a letra do Hino a partir de um texto vindo a lume n´„O Barreirense“ em 1956, a antiga publicação dos rubro-brancos.