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GRUPO I

 

GRUPO II

 

GRUPO III

 

GRUPO IV

 

Manuel Teixeira Gomes (1860-1941)
Presidente da República, embaixador, comerciante, escritor, cronista

Haverá quem se interrogue se o político da I República Manuel Teixeira Gomes está assim vinculado ao Barreiro. Sim, um tanto vinculado está. Mas não, por o algarvio de Portimão certamente ter viajado algumas vezes de comboio entre o seu Barlavento e o Barreiro, e seguia de vapor até à Capital. E vice-versa… Mas isso não dava para ele „se vincular“ a sério à nossa vila ribeirinha com Lisboa bem lá ao fundo. Porém, o escritor vinculou-se um tanto ao Barreiro quando redigiu um lindo texto na Seara Nova sobre o que ele sentia nas (então) morosas travessias do estuário do Tagus. Oh, aquelas paragens que se viam para Oriente, chamadas Alburrica e Mexilhoeiro. Eram paisagens que lhe pareciam os grachten (os canais) da Holanda... E para Ocidente, para o lado do Seixal, aquilo até lhe fazia lembrar a Ligúria, lá para as bandas de Génova…
Houve ainda dois jornalistas do Barreiro que publicaram relevantes textos sobre Teixeira Gomes. Um foi Manuel Cabanas, barreirense adoptivo, artista xilogravador, que o conheceu pessoalmente. Cabanas, durante seu serviço militar nos Sapadores, em nome dos praças pronunciou empolgante alocução a Teixeira Gomes. Então, o seu co-provinciano Presidente da República convidou-o para um dos seus almoços com cidadãos comuns. Disso Cabanas muito se orgulhava.
O outro jornalista, que mais que uma vez escreveu sobre Teixeira Gomes, também no sentido de seus restos mortais serem finalmente trasladados para a Pátria, foi Armando S. Pais. Em 14-5-1950 assinou um artigo n´O Algarve, de Faro, onde colaborou durante anos. O escrito intitulou-se „Um patriótico alvitre. A sepultura de Teixeira Gomes não deve ficar esquecida em África“. O muito conceituado jornalista Norberto Lopes - que ascendeu a director do Diário de Lisboa, vespertino em geral não afecto ao regime de então – solicitou a Armando Pais a transcrição daquele artigo. E em 16-5-1950, o Diário de Lisboa também divulgou o referido texto de A. Pais, que poderá ser lido adiante. (Anote-se que Norberto Lopes – o último entrevistador do exilado Teixeira Gomes - publicara em 1942 os livros O Exilado de Bougie e Perfil de Teixeira Gomes).

 

Cita-se, da pena de Teixeira Gomes, uma travessia do Tejo, do Barreiro a Lisboa

 

Da admirável pena desta tão insigne figura da inditosa I República iremos então transcrever, o atrás referido texto publicado em 1928 na Seara Nova (sujeito, claro, ao lápis azul da censura). O autor já se encontrava no exílio voluntário.   
 „Chegámos ao Barreiro e embarcámos para o travessia do larguíssimo Tejo. Como é extraordinária e desusada, ali, a paisagem! À direita, a terra baixa e rasa, adianta-se, à flor de água, balizada pelos nossos cilindros dos moínhos de vento, tudo parodiando um canto de Dordrecht, na sua atmosfera luminosa húmida e perlada. Na margem esquerda, o vasto espelho de água quebrara-se de encontro aos alcantis de argila ruiva, que lhe tinge de vermelho a cristalina transparência; são altos cortes, a pique, abrindo em pequeninas enseadas e sustendo um pinhal cerrado, que de longe parece cobrir inteiramente a terra de veludo. É o contraste de verde e púrpura da costa da Ligúria.     
Mas a grande, a esplêndida fantasia, que vai além desses arremedos de paisagem holandesa ou italiana, é Lisboa, ao fundo, ferida obliquamente pelo sol nascente, a galgar montes sem fim, entre penumbras levíssimas de névoa rosada, e faiscantes rutilâncias de oiro, levando a desordem do seu interminável casario, até perder de vista, quando já o fumo em que se esvai pousa nas longínquas esteiras da água luzente“.

Ligeiras notas biográficas de Teixeira Gomes

Citar-se-á a seguir bastante do que o presente escrevinhador publicou no “JB” e na “VB” há quase uma década. Manuel Teixeira Gomes nasce em Portimão em 1860, filho de fabricante de conservas de figos. Em Coimbra frequenta a escola do Seminário, depois estuda na Universidade, não concluindo o curso. Boémio, volta-se para o jornalismo, depois para a literatura, tornando-se um estilista de enorme gabarito. Gosta de pintar.
Muito viajado, já em jovem peregrinara pela Europa, Norte de África e Ásia Menor, de barco, de comboio, somando impressões. Encarrega-se dos negócios de exportação da empresa paterna. O seu porte fino, a grande cultura, o domínio de vários idiomas abrem-lhe muitas portas, tanto na actividade comercial, como mais tarde na política.

Membro do Partido Republicano (Partido Democrático desde meados de 1911) Teixeira Gomes torna-se já em 1911 o primeiro embaixador da República em Londres. Ocupou esse cargo uma segunda vez, até 1923. Figura íntegra de democrata, a sua única mácula terá sido a decisiva actuação como ministro em Londres - seguindo obviamente as directrizes dos governos de Lisboa - no sentido de induzir o Foreign Office a aceitar a nossa participação no palco da I Grande Guerra na Europa (1916-1918). Tal intervenção, tão desastrosa e mortífera, aliada às tremendas tensões políticas e sociais, bastante contribuiu para o total descalabro da I República. Bons velhos amigos republicanos (como Brito Camacho) cortaram relações com ele em virtude da nossa intervenção bélica  nos territórios francês e belga da Flandres.
Em 1923, Teixeira Gomes é convidado pelo líder histórico do Partido Democrático, Afonso Costa, a candidatar-se à Presidência da República. (Assinale-se que Afonso Costa - que se tornou alma negra da I República - vivia então em hotel de luxo parisiense, mas sempre mexendo, a partir dali, os cordelinhos do Partido Democrático). Teixeira Gomes - que não era companheiro maçónico - aceita o convite, condicionando-o a que Afonso Costa lhe prometesse vir a ser seu chefe do governo. Afonso Costa prometeu,… mas não cumpriu. Durante o mandato de Teixeira Gomes os partidos continuaram a digladiar-se, imperavam violências, assassínios, atentados bombistas. (Teixeira Gomes chegou a assistir a um atentado à bomba). Naquela por alguns designada “Democracia”, da anarquia social e administrativa, grassavam a desordem, a fome, a corrupção. Em que só avantajada minoria votava. E apenas homens, em princípio só alfabetizados. E nada de mulheres, pois, pelos vistos, o sector feminino ainda não atingira um nível suficiente. (As raríssimas senhoras que puderam votar foi porque interpuseram acção juducial…). O Presidente T. Gomes passou a ser alvo de campanhas republicanas das mais insidiosas (uma delas de ser pederasta, ele, que sempre apreciara tanto as mulheres… Mas não desposou.). Incompatibiliza-se com a agitação, com as cenas de pancadaria no Parlamento, com a esterilidade naquele histórico edifício. Toma uma decisão digna, de gentleman que foi… Renunciou em Dezembro de 1925, alegando, “diplomaticamente”, razões de saúde. (Lê-se, também por querer entregar-se, no estrangeiro, a cem por cento, às letras. Muito singular!). Exercera o cargo de Presidente da República apenas durante dois anos e meio. Tinha sido o sétimo Presidente da República (implantada havia só 15 anos!) e em dois anos e tal tinha dado posse a… sete governos… 
Auto-exila-se, deixa o País num cargueiro holandês. Totalmente desiludido já afirmara em Portugal (!) - inclusive às suas duas descendentes - que nunca mais regressaria ao seu País. Teixeira Gomes viajou, de início, por diversos países, passando a dar conhecimento às claras do que em Portugal afirmara a familiares e a alguns amigos, de não querer mais voltar à terra natal, nem vivo, nem morto.  Em 1931 decide fixar residência num hotel de Bougie, Argélia Francesa. Daí começa a enviar bem regularmente artigos, crónicas, para a “Seara Nova” e manuscritos para novos livros. Salienta-se como escritor do mais fino recorte.
Corresponde-se com amigos, verberando aqueles que haviam “espezinhado a democracia”. Mais tarde vieram a público teores de missivas que enviara da Argélia. Numa delas queixa-se da falta de preparação do Povo e dos políticos e diz textualmente em relação ao seu mandato: “penso que eles foram sobretudo desleixados e estúpidos, de pouco nervo e com espertezas de rato. Houvesse entre os partidários do povo gente com alguma cultura e coragem, que tudo teria desfechado numa crise de bolchevismo, e seria então o dia do juízo”.
Teixeira Gomes não deixou autobiografia. Mas, no hotel onde vivia, concedeu conhecida entrevista a Roberto Lopes. O “exilado de Bougie”, morreu em 1941, aos 80 anos, quase cego e só (!), ficando enterrado na Argélia. Até ao fim expressou a vontade de não desejar ser sepultado na Pátria.                    
Após campanha de anos, oriunda de todos os quadrantes, também da parte de governos da II República, os restos mortais de Teixeira Gomes foram por fim trasladados no barco Dão – com a anuência das descendentes – da Argélia para o Algarve. Isso sem que os seus despojos mortais passassem por Lisboa. Ele fora homem que sempre procurou evitar cerimónias em seu proveito. O Presidente da República General Óscar Carmona honrou o antigo Presidente com o marechalato (grã-cruz das três ordens militares). Milhares de pessoas quiseram estar presentes no cemitério de Portimão em 18 de Outubro 1950. Momentos houve em que os ânimos se exaltaram fortemente. Manuel Cabanas também se exaltou lá.

O “politicamente correcto”

Em 2010 comemoraram-se, em especial no Algarve, os 150 anos do nascimento de Manuel Teixeira Gomes. Quem aqui escreve, que assina um semanário algarvio, interessou-se por tudo o que veio a lume na imprensa respeitante àquela efeméride. Mas relevantes factos que, somados, induziram Teixeira Gomes a tornar-se um exilado voluntário não foram referidos. Por exemplo: o aqui já mencionado sobre Afonso Costa que, de Paris, convidou Teixeira Gomes para se candidatar a Presidente e lhe prometeu voltar a ser chefe do governo, não cumprindo o prometido. Que Teixeira Gomes não conseguiu atenuar as tremendas disputas entre os partidos (até eram como que normais as cenas de porrada no Parlamento). Ele até nem viu hipótese de reconciliar os políticos do seu partido, o Democrático. Um facto que muito o desanimou foi o de ele, Presidente, passar a ser objecto de campanhas pérfidas. É também muito “incorrecto”, mas verdadeiro, que antes de abandonar o país no barco holandês Teixeira Gomes já afirmara a pessoas muito próximas que nunca mais voltaria atrás.
Claro que os cidadãos pressentiam que chegaria aí um regime igualmente propenso a ditadura, mas tendo em vista também estabelecer uma ordem mínima, tornar o País finalmente governável. Coisa nada fácil, desde havia décadas que não o era (!). A Ditadura Militar chegou a 28 de Maio de 1926, cinco meses após a resignação de Teixeira Gomes.
Quando das efemérides de 2010 também praticamente não se rememoraram os juízos de desabafo que o ex-Presidente Teixeira Gomes escreveu do estrangeiro a amigos. Juízos esses que se sabe terem sido transcritos da correspondência remetida do exílio pelo eminente algarvio. Pelos vistos, nessas cartas podia ele expressar melhor suas veras opiniões. Como aquela mencionada atrás, quanto à pouca preparação, também dos políticos, “…desleixados e estúpidos, de pouco nervo e com espertezas de rato”.
Bem, em 2010 assistiu-se (o que já se esperava), ao desenvolvido “branqueamento” do que sucedeu na I República. Prefere-se aludir mais às ideias e às doutrinas, do que a suas aplicações e resultados. Elevam-se, até mais não, as boas intenções, e fecham-se os olhos, por sistema, a acções negativas e  maléficas. 
Divulgar muito do que na realidade sucedeu naquele regime, seria “politicamente incorrecto”, um “erro bestial”. Na comunicação social há muitos “comunicadores” que levam mais em conta o que pretendem que seja o “correcto”. Sentem a “necessidade” de deixar de lado o historicamente correcto, preferindo, quantas vezes, o “historicamente aldrabado”. É coisa que sempre esteve na massa do sangue de muitos lusitanos. (Haverá fortes razões para isso?). Mas sabe-se que, felizmente, o “correcto” também se vai alterando com os tempos.    
Para terminar diga-se neste contexto: sabe-se que o insigne poeta Fernando Pessoa (1888-1935) se pronunciou muito “acidamente” sobre os dois regimes republicanos portugueses em que viveu. E sobre a I República Pessoa afirmou detestar seus princípios, e considerar seus políticos “ignorantes, incapazes e cúpidos”. Mas isto é coisa “incorrecta” que “não convém dizer”, que “já lá vai”. Também se pode, à vontade, “metê-la na gaveta”. É, “notoriamente”, tudo… poesia.