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ANTONIO  JOSÉ “DA  LOURA”  (1864  – 1949)
Mestre operário, técnico ferroviário, artista decorador, associativista

António José (seu nome de baptismo) nasceu no Barreiro a 13-5-1864. O monógrafo barreirense Armando S. Pais tinha-o em grande consideração, inclusivamente por aquele ferroviário lhe ter fornecido “não poucas e interessantes notas” em especial referentes ao historial dos caminhos de ferro locais. Notas essas que Armando S. Pais divulgou em monografias.
Em 1964, a Biblioteca Municipal do Barreiro comemorou o centenário de António José “da Loura”, no dizer do Povo, “Zé da Loura”, expondo objectos decorativos que o evocado havia levado a efeito. Então, funcionários da biblioteca pediram a Armando S. Pais que escrevesse algo sobre o autor daqueles trabalhos. Este atendeu esse pedido. No Jornal do Barreiro de 26-3-1964 veio então a público um texto biográfico correspondente. Tinha sido baseado em apontamentos antigos e num artigo do próprio A.S.P. publicado no semanário O Barreiro em 1944 (vide mais adiante). Desse artigo de A.S.P. citamos parte:

UM MESTRE DE OPERÁRIOS BARREIRENSES

No Centenário de António José “da Loura” - 1964
No dia 13 de Março de 1864 (um domingo em que pelas ruas do Barreiro desfilava a Procissão do Senhor dos Passos) nasceu nesta vila um menino que receberia na pia baptismal o simples e económico nome de António José... Era seu pai Domingos Bernardo e sua mãe uma airosa e desenxovalhada rapariga alourada de nome Joana Baptista. ... A vizinhança daquele lar de gente pobre, mas honrada e feliz, começou daí a pouco a distinguir o rapazito dos outros da sua idade pelo “soubriquet” de António José – da Loura. ... Tornou-se um exemplo de self made man, dos muitos que se forjaram neste vila e lhe deram – e dão ainda – fama de possuir operários dos mais habilidosos do País. Que saibamos, ele só sabia ler, escrever e contar, e o “curso” que frequentou... foi a tropa – mas chegou a Mestre-Geral das Oficinas dos Caminhos de Ferro do Estado,  do Barreiro. Quanta ciência “empacotada” seria hoje necessário acumular para isso – para depois, 90% dela deitar para desperdícios?!...   
António José entrou com 13 anos para aprendiz de serralheiro das oficinas. A sua muita habilidade para o desenho de máquinas e ferramentas deu-lhe ensejo para se destacar e passar para a Secção de Desenho, da qual foi nomeado contra-mestre em 1889. ... Esteve em missão de serviço na Escócia, onde fiscalizou a construção de várias máquinas para os C.F.S.S. Entre outros importantes trabalhos executados sob a direcção de António José, figuraram as primeiras balanças centesimais usadas nos caminhos de ferro do sul, e algumas básculas para grandes pesagens, recebendo a medalha de “Bons Serviços e Exemplar Comportamento”, por decreto de 25 de Maio de 1912.
Em 1913, este... mestre de operários pediu a reforma. Tinha 36 anos de serviço, e iria viver ainda outros 36 anos, como aposentado... Ele fora o 3° mestre-geral das Oficinas dos C.F. do Sul e Sueste.
Quando mais de perto conhecemos António José, andava ele já na casa dos sessenta anos. Várias vezes subimos ao 1° andar da sua residência, na ... Almirante Reis... esquinando para a Rua Dr. Eusébio Leão, e, por nossas largas conversas, muitas indicações preciosas do Barreiro do Século XIX lhe ficámos devendo. Era ainda um homem bem conservado, e raro lhe faltava a memória, mas quando lhe escapava uma indicação, embora secundária, logo acudia a mulher D. Gertrudes Maria Marques, também do Barreiro... Era um casal muito unido. Viviam um para o outro.
Aos 7 anos de idade, António José tornou-se componente da banda de música dos ... “Franceses”, tocando ferrinhos. Nos fins de 1871, lá foi ele incorporado na banda, tocar a Lisboa, ao Paço das Necessidades. Como era muito miúdo, foi autorizado a subir para um banco. Recebeu umas moedas do Rei D. Luís.
Quando se reformou.... António José “da Loura” dirigiu muitos trabalhos de decoração para as salas de sua dilecta colectividade, em grandes ocasiões festivas. E das suas mãos saíram ainda interessantes trabalhos em cartão e papéis coloridos: figuras, flores, calendários, etc., que distribuia pelos moços e pelas meninas das suas relações. Na época das folias carnavalescas, na Páscoa e pelos santos populares era então solicitado pela mocidade alegre para exibir as suas paciências.
Quando pelos anos de trinta as bandas dos “Penicheiros” e “Franceses” acabaram e a emulação terminou, António José repartiu também pelos “Penicheiros” a sua colaboração nas festas que essa colectividade organizava. Para mais, era seu bem próximo vizinho...
Quando este velho ferroviário faleceu – a 14 de Setembro de 1949 – não havia imprensa regionalista no Barreiro. O seu passamento não foi por isso assinalado como devia. O centenário do seu nascimento passado este mês, deu-nos, pois, o ensejo de recordar alguns traços desssa figura de genuíno barreirense de cujas mãos saíram muitos prodígios de bom gosto. Que grande professor de desenho e trabalhos manuais ele poderia ter sido!

 

“Zé da Loura” - Artigo no Jornal do Barreiro de 24-12-2002

Agora algumas citações de artigo dado à estampa em 2002 por quem aqui escreve:
Nosso pai colheu junto de “Zé da Loura” preciosos elementos sobre o trabalho e o associativismo das derradeiras décadas da Monarquia e princípio da República. A título de exemplo: na pag. 132 de “O Barreiro Antigo e Moderno” consta a relação fornecida por António José, das derradeiras 11 bateiras (a Zabumba, a Choca, a Bolacha, a Patarata, etc), com nomes dos proprietários, que na época de 1875 exerciam a faina da pesca a partir da praia do Barreiro.
Um dia sucedeu um tremendo desaguisado entre António José e uma Direcção dos Franceses. O grande sócio-artista afastou-se com profundo desgosto. Mais tarde deram razão a António José, mas o triste incidente nunca foi sanado. Tornou-se “tabu”, de futuro ninguém ousava tocar no assunto na presença de António José, que também sabia mostrar sarcasmo ou verrina. Aderiu à colectividade rival, os Penicheiros, onde ainda colaborou durante muitos anos.
Recordações de um afilhado, e de mais barreirenses
António José da Costa, para muito “Evaristo” (nome do pai), é nosso antigo, simpático conhecido. Há anos abriu-nos recordações suas respeitantes a António José “da Loura”. Tomamos a liberdade de publicar excertos, quase todos nunca divulgados por escrito. “Evaristo” nasceu também num 13 de Março, viveu no mesmo primeiro andar, passava mais tempo na casa do padrinho que na própria casa. O prédio de gaveto ainda lá está, a dois passos da escadaria dos Penicheiros. As janelas da casa de António José “da Loura” davam para a Rua Câmara Pestana, ao passo que as da família do afilhado Costa estavam viradas para a Rua Almirante Reis. Uma varanda era comum.
Realmente, António José da Costa, afilhado do “Zé da Loura” muito gentilmente nos concedeu acesso a documentação que pertenceu àquele vulto de outrora, documentação essa constituída por fotografias, manuscritos de linda caligrafia e notáveis desenhos de máquinas concebidos pelo mesmo. Sentimo-nos na obrigação de divulgar a existência de tal espólio, que desconhecíamos. Com que curiosidade e prazer manuseámos o material, que pertencera a alguém que também manteve fortes laços de amizade com familiares nossos. (Sim, nosso avô materno José Maria da Costa Mano, merceeiro da Rua Aguiar, e uma prima, foram seus afilhados de baptismo).
“Zé da Loura” nunca teve em casa energia eléctrica ou rádio. Organizava uma tertúlia semanal todas as quintas-feiras, das 20 h até à meia noite. Estavam presentes até sete indivíduos, antigos aprendizes dos C.F.S.S., debatendo-se temas de cultura geral, vida social e política. O nosso entrevistado assistiu, durante bons anos, a tais sessões, mas “sem abrir o bico”. O anfitrião dizia-lhe: “Quando os homens conversam, as crianças não se metem…”. Por vezes também se reuniam lá em casa amigos de maior projecção social. Mantinha fortes amizades, por exemplo, com o dr. Manuel Pacheco Nobre ou o farmacêutico republicano José Luís Costa. Não faltavam os repastos, com os tão elogiados cozinhados da esposa, D. Gertrudes.
Graças à boa reforma, António José (da Loura) levava vida desafogada, quase até ao fim. Com as “moedas grandes” um dia recebidas do Rei D. Luís começara a comprar livros.  Um dia saiu-lhe um grande prémio da lotaria. Possuía os volumes da grande “Enciclopédia do Povo” (que muito estudou) e até a colecção completa de Jules Verne. Muitos jovens iam regularmente a casa do “padrinho” (cuja porta ostentava enorme e barulhenta sineta) a fim de buscar ou devolver aqueles livros vermelhos das aventuras de Jules Verne. Era o próprio António José que incitava tais leituras à miudagem. As decorações lá no primeiro andar eram bem ricas. Havia um grande espelho de Veneza e uma bela máquina de costura, segundo consta da marca Pfaff.
As irmãs, nossas primas, Olga Costa Mano e Esperança Mano Padrão também nos evocaram bastante do “Zé da Loura”. Até aos princípios dos anos 30, António José construía no Largo Casal, por altura dos Santos Populares, tronos de madeira de vários degraus. Lá no alto era o Santo António. Estas nossas primas ainda guardavam formosos calendários feitos pelo artista, tal como objectos de salinhas de cartolina, com palhinhas, tudo colado com cola de sapateiro (farinha, água e vinagre) que António José fazia para oferecer às afilhadas.  
Também falámos com José da Conceição, que bem conheceu António José. Sua esposa era afilhada lá de casa. Recordou-nos os pratos de barro enfeitados com pedaços de louça, os leques com caras bonitas, as bandeirinhas de esticar próprias para ornamentações. Contou-nos o seguinte episódio, que nos abstemos de classificar. António José e D. Gertrudes eram muito amigos. O facto de ele ser republicano e ela monárquica em nada o impedia. Combinaram cada um levar a sua bandeira para a última morada. Aconteceu, porém, que por engano, puseram a bandeira monárquica no esquife de António José. D. Gertrudes faleceu depois. Então, ela levou o estandarte republicano.
O casal António José e Gertrudes Maria Marques não teve descendência. Diz-se que a empregada lá de casa, analfabeta, que ficou com muito do legado, vendeu a quilo, a alfarrabistas de Lisboa, muitos dos raros livros, que também incluíam primeiras edições de Camilo. O insigne ferroviário barreirense foi homem de entrega, um artista benemérito. Há poucos anos, o seu nome passou a fazer parte, com a maior justiça, da toponímia da cidade.