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Fialho de Almeida (1857-1911)
Panfletário, folhetinista, contista, escritor, médico

 
 

Para este escrito tomaremos por base o artigo n° 25 da nossa série de 31 trechos de página divulgados entre Dezembro de 2001 e Fevereiro de 2003 no semanário “Voz do Barreiro”. Tratou-se de trabalho alusivo ao centenário do nascimento do mestre xilógrafo, barreirense adoptivo, Manuel Cabanas. Reproduzimos aqui o cabeçalho desse trabalho n° XXV, assim como as três imagens publicadas. São duas xilos (um perfil de Fialho de Ameida, a outra referente. ao vapor D. Augusto), além de uma foto do biografado no seu gabinete de trabalho em Cuba, Alentejo.    
Mas por que razão o (antes tão famoso) estilista da pena está especialmente vinculado ao Barreiro? Bem, o motivo não é por ele se ter deslocado não poucas vezes entre o seu Baixo Alentejo e a capital. Claro que normalmente viajava de comboio e  - entre Barreiro e Lisboa - de barco... Fialho está, porém, bem ligado ao Barreiro porque escreveu um esplêndido, bem elogiado texto sobre a travessia do harmonioso Tejo… 

 
 
 

José Valentim Fialho de Almeida nasceu em Vila de Frades (concelho de Vidigueira), em 7 de Maio de 1857. Seu pai era professor primário de fracas condições financeiras. Aos dez anos Zé Valentim foi estudar para um colégio lisboeta. Adolescente tornou-se praticante de farmácia. (Um boticário, dizia-se então). Na sua autobiográfica À ESQUINA destacou o seu labor de sete anos na botica: “... ainda hoje não me posso lembrar sem ranger os dentes”. Confessou, no entanto, que os anos de “emplastros e pílulas que passou na baiuca tão velha, infecta, escura e desordenada” lhe proporcionaram “contacto absoluto com o povo”, mostrando-lhe a “existência dos bairros pobres, os dramas da miséria social e que, com tempo, lhe azedaram o espírito e o tornaram inconformista e satírico. Tal ressalta bem na sua obra.
Por necessidade, Fialho começou a amealhar uns dinheiros colaborando em folhetos literários. Isso  ajudou-o a financiar os estudos na Escola Politécnica de Lisboa. Formou-se em medicina. No entretanto passara a escrever na imprensa lisboeta e também da província. (Com muito gosto utilizava galicismos, então muito na moda). Participava na feitura de dicionários, tudo com grande envergadura. Seus artigos bastas vezes ironizavam, e de que maneira, os maiorais. Chegou a dedicar-se à política, mas tal só lhe trouxe dissabores. Um amigo íntimo escreveu: “As camadas monárquicas que ele ridicularizou, desprezaram-no; a sociedade republicana, a que ele deu afagos e carinhos teve de o odiar. O pendor natural da sua inteligência, amando as irritações e até as inconveniências, afastava-o do convívio agradável dos homens e muito mais da afabilidade das mulheres”. Parece que Fialho só exerceu medicina durante dois meses... Com ele perdeu-se um médico, mas ganhou-se um estilista de português da mais pura água.

 “AS FARPAS”, “OS GATOS”

Homem de impulsos e inspirações de momento, Fialho possuia estilo verbalista e barroco. N` ”AS FARPAS” colaborou com o grande Ramalho Ortigão. “OS GATOS, do tipo panfletário, depois reunidos em livro, constituem sua obra mais conhecida.
Este escritor viajou - teve que viajar – não poucas vezes entre seu Baixo Alentejo e a capital, utilizando os serviços dos Caminhos de Ferro do Sul e Sueste, que incluíam as viagens nos vapores da mesma companhia. O grande prosador deixou para a posteridade – houve quem o dissesse - a mais bela descrição duma travessia de barco de carreira do Barreiro até Lisboa. Vamos citar grande parte do texto. Os entretítulos são da nossa lavra…

VAPOR DA CARREIRA BARREIRO-LISBOA

“Enquanto o vapor não chega, detenho-me a abranger amorosamente, dos terraços da estação do Barreiro, a marinha flácida que a meus olhos se desenrola, uma quase nada perdida nas musselinas ondeantes da manhã… Daquela altura da riba, a expansão que faz o Tejo, dá-me uma sensação de taça cheia, tão fechado o circuito das suas margens… No primeiro plano, à direita, uma língua de terra contém moínhos e casebres brancos, muros de quinta, oliveiras e eucaliptos tristes, que se acurvam a saudar a lufada da aurora vinda da barra.

O vapor da carreira dá sinal…Circunscrevemos a ponta dos moínhos, e a enseada alarga-se, a toalha líquida desdobra-se… Pouco a pouco a luz transmuta-se, cambiam-se no ar tonalidades que a fugida da névoa renova e substitui com uma instantânea agilidade, e que, mercê dela, tirou dessa mesma paisagem centenas de clichés todos diferentes, qual mais vagarosamente irisado de estro trágico.

FIALHO DE ALMEIDA
FOTOS E LIVROS
 

O “MAR DA PALHA”,  À VISTA DE LISBOA

Já as margens do rio se afastam, verdadeiramente vencidas pela força de expansão do volume de água, que vai do rio a oceano, e abarca no “mar da palha” uma distância intérmina e radiosa. À esquerda, os pormenores da riba acentuam-se e definem-se, grupo a grupo, e começam-se a apontar povoações, Arrentela, Seixal, Cacilhas, Almada a cavaleiro; vêem-se prédios, pontais, baías do tamanho de banheiras, um formilhar de manchas claras com fundos de pinhal e olivedo, onde um ou outro moínho move circularmente as suas velas cristãs, em pétalas de crucífera, guinchando ao vento, como os bibes nos lavradios, à cata de minhocas.
Pela direita, porém, a margem foge, acachapa-se, humilha-se, esquece, e é verdadeiramente colossal a marinha que sob o meu olhar se desenrola. No fundo do poente, a névoa sempre, névoa cor de pérola, fluidíssima, ar visível, que nasce da barra como o nimbo não sei de que formidável ascensão, e toda a cidade, as serras, os arrebaldes, preparando o final do acto feérico que há-de ser a nossa chegada à vista de Lisboa…
Marchamos a vapor, em pleno “mar da palha”; há vento; a vaga, porém, dulcíssima como um semicúpio morno, faz a perder de vista uma alcatifa de felpa, por onde o barco pisa alegremente. A vastidão do horizonte é maravilhosa, e com detalhes supremos de transparência matinal.
Alguns barcos ao longe, de vela oblíqua, parecem, nas envolvências da bruma, postos de propósito para fazerem bater o coração dum colorista. Mais longe, para além, ligeiras névoas aveludam Lisboa e as cordilheiras graves dessa margem, mostrando-se como uma sucessão de terraços sobre o Tejo… Mau grado a sua magnificência e largura panorâmica, essa marinha guarda sempre uma nitidez de vinheta a talhe doce, é um golfo de mágica, volatilizado de poeiras de oiro, e onde só faltam sereias e tritões empurrando a concha de Neptuno. O monógrafo barreirense Armando S. Pais intitulou este trecho de “A Aguarela da Travessia do Tejo”.

 

O VAPOR DE PALHETAS  D. AUGUSTO

Pois, “uma língua de terra contém moínhos e casebres brancos, etc, etc …” é referência óbvia a Alburrica. Nesta crónica reproduzimos, como já dito, a xilogravura de Manuel Cabanas referente ao famoso vapor D. Augusto. Fialho de Almeida não especificou em que barco da carreira viajou na travessia que tão magistralmente descreveu. Poderia muito bem ter sido o vagaroso vapor  D. Augusto. A República, logo que chegada, saneou aquela “denominação nobre”,  substituindo D. Augusto por Algarve. (Este barco, o último dos C.F.S.S. movido a palhetas, seria destruído contra o molhe da estação do Barreiro durante o calamitoso ciclone de 15 de Fevereiro de 1941).

E RETORNOU AO SEU ALENTEJO

Fialho, o boémio escritor de grande envergadura, sempre dominado pela beleza dos campos em que vivera na juventude, voltou para sempre ao seu Alentejo, já casado, como agricultor. Radica-se em Cuba. Ele, que tanto fustigara, zurzira os monárquicos, e também os republicanos, já não se encontrava neste mundo para assistir à evolução daquela I República. Ainda se lêem escritos seus datados de Dezembro de 1910, mas Fialho terminou a sua existência em Cuba em 1911 (4 de Março), acometido de síncope cardíaca, com apenas 54 anos incompletos. Como ele teria repreendido, verberado, por escrito, com a habitual irreverância, os não poucos bonzos republicanos, especialistas em pasquins, que sempre avançavam com belos ideais, com fantásticos planos, mas que não eram concretizados. O regime logo se tornou naquela “democrática” ditadura parlamentar, tão infeliz, sem Lei, nem Ordem. Em 1913, as mulheres passaram a “usufruir” de cidadania de segunda classe, pois foi-lhes explicitamente proibido o voto republicano. 
E o que teria divulgado Fialho quanto à intervenção imposta em 1916/1918 às mal preparadas tropas nacionais na Grande Guerra Europeia, tudo activado por “proeminentes líderes” republicanos? Intervenção essa que redundou em fatídico, tremendo morticínio na Flandes... Bem se imagina que o nosso biografado, pelo menos fosse parar, por uns bons tempos, em xilindrós, em aljubes, pois não deixaria de afirmar muitas verdades sobre aquela infeliz jovem República.
O nome de Fialho de Almeida consta na toponímia do Barreiro, na Verderena. Ainda bem... Estamos convencidos que qualquer barreirense – que ao longo da vida viaja inúmeras vezes nos barcos de carreira entre o Barreiro e a capital – apreciará ler aquelas afirmações dadas à pena pelo insigne autor alentejano da Vidigueira.  
A propósito... Reproduzimos aqui não poucas capas de livros com prosas de Fialho de Almeida. Para obter cópias dessas capas não tivemos necessidade de visitar a Biblioteca Nacional. Nossos ancestrais próximos apreciavam muito aquela escrita, resguardando os volumes, uns aos lado dos outros, em lugar de relevo das suas bibliotecas particulares.