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JOSÉ JOAQUIM “OFICIAL“  (1916-2001)
Corticeiro, trabalhador da CUF, fotógrafo amador, desportista 

Nótulas introdutórias
Há anos assinámos três textos no semanário “A Voz do Barreiro” resultantes dos contactos com o nosso amigo José Joaquim. No primeiro, publicado em Agosto de 1998, passámos para papel muito do que ele nos contou sobre o saudoso clube local de foot-ball Império F.C.B., onde ele alinhou. (Vide foto mais adiante). Era uma filial do F.C. Barreirense que atingiu período glorioso na década de 30, quando os rubro-brancos disputavam os Campeonatos de Lisboa.  O segundo trecho, divulgado em Janeiro de 2001, constituiu larga entrevista de vida a J. J. “Oficial”. O terceiro texto, vindo a lume em Março desse mesmo ano, aconteceu quando tomámos conhecimento de que José Joaquim se havia despedido da vida...
Deixemos o Império F.C.B. para outra ocasião, quando nos debruçarmos sobre os ricos historiais de alguns clubes populares de outros tempos da vila industrial. Agora iremos reflectir sobre aquela entrevista de Janeiro de 2001 que o “Oficial” ainda viu publicada. Como dito atrás, também nos referiremos ao seu falecimento, para nós tão chocante, ocorrido poucas semanas após a efectivação da entrevista.
Abreviaremos alguns dos dados inseridos, acrescentaremos alguns N.I. (ou Notas Informativas), iremos certamente “enfeitar” um tanto a crónica, em especial apresentando  uma pequena “mancheia” das suas montagens e composições de imagens referentes à sua terra natal, seus desportistas, incluindo em especial seus conterrâneos. Uma vez opinámos que o “Oficial” era um muito talentoso “compositor fotográfico”.          

 
 

 “Fotografei muito a minha terra e suas gentes, sem interesse económico“
Texto abreviado de artigo saído na “Voz do Barreiro” de  6 de Janeiro de 2001)

Focamos hoje em especial a faceta de fotógrafo de José Joaquim, figura estimada entre nós. Noutros tempos, estava-se num restaurante, num café do centro do Barreiro, chegava o José Joaquim, a boa disposição não diminuia, muito pelo contrário. Uma vez por outra trazia consigo a máquina de fotografar.
Não poucos albuns e gavetas de barreirenses ainda albergarão instantâneos fotográficos da autoria de José Joaquim. Desde há muito que mantemos laços de amizade com o “Oficial“. Do bom número de fotos que nos foi oferecendo – como a tanta gente – escolhemos aquelas que acompanham a presente entrevista. José Joaquim é utente, há alguns anos, da Misericórdia do Barreiro. Afirmou-nos:
- Nasci em 22 Setembro de 1916  na Rua José Relvas 36. Em frente seria o Colégio do Seixas. Sempre vivi naquela casa até vir para este Lar. Andei na Conde Ferreira, só terminei a primária nas aulas nocturnas da CUF, já eu lá trabalhava.
- Raízes familiares?
- O meu avô paterno era de Silves. Foi pai de quatro rapazes (dois foram corticeiros, dois ferroviários) e duma rapariga. Ela chegou a ter casa de comidas na Rua Miguel Pais. O meu pai nasceu em São Brás de Alportel e foi corticeiro. Do lado da minha mãe sou neto do pescador Papa-Fina.  Olha, o pai do Joaquim Guilherme (do team do Barreirense campeão de Lisboa de basquete) era irmão da minha mãe. O meu pai também vendia fruta. Chamavam-lhe “camoeiro“. (N.I.: para J. Joaquim este é um termo algarvio).
- Começaste cedo a trabalhar, certamente…
- Sim, em garoto levava às costas alimentação para empregados da CUF. Ainda muito jovem andei a vender “castanhas quentes e boas“. Comprava uma arroba delas e vendia 30 ou 40 a uma c´roa.  (N.I.: ou seja, cinco tostões ou meio escudo). Para ir à borla ao Teatro-Cine andei com a bandeja que tinha cinco buracos para os copos e um pé. A água do Poço 16 era a tostão o copo, mas o dinheiro era para o bufete. O meu primeiro emprego foi corticeiro na Cantinhos (ganhava 25 tostões por dia), depois outra vez corticeiro na Teodoro Rúbio, Rua Elias Garcia. Entrei para a CUF, onde passei por várias secções. Na fundição fui balanceiro (pesava material). Vim a  reformar-me na CUF.
-  Ficaste solteiro...
- Não me quis casar, gostava de andar na “galfarragem“.
- Viajaste muito?
- Por todo o país, pela Espanha, em especial pela Galiza. Fui lá com a família do Fernandez oculista. Eu era estafeta do Quico. Por ocasião dos Jogos Olímpicos de Roma, em 1960, participei numa viagem por muitos países organizada pelo Clube de Campismo.
- Clubes preferidos?
- O Barreirense, que acompanhei intensamente. Também fui sócio do Império. (N.I.: Era um clube de muito valor, sediado na Rua Aguiar). Quanto às colectividades de recreio dediquei-me aos Franceses, mas visitei os Penicheiros para reportagens  fotográficas.

 
 

Sem apelido, duas alcunhas

José Joaquim é conhecido na urbe barreirense por duas alcunhas. Mas, curiosamente, não tem apelido. Ou, visto doutra maneira, um nome próprio passou a ser apelido. Não será caso único…
- Chamo-me só José Joaquim. Os meus irmãos e irmã todos foram registados com Rodrigues. Até eu ir à inspecção militar dizia chamar-me Rodrigues. Procurei o meu nome no edital e não podia crer. Só constava José Joaquim... Sem apelido.  
- E as duas alcunhas?
- Bem, foi o meu pai que começou a chamar-me “Saca-rolhas“ porque eu tinha o cabelo aos caracóis louros. As mulheres acharam graça e pegou. O “Oficial“ veio muito depois, quando comecei, como tantos barreirenses, a fazer campismo na Arrábida. Tudo devido às brincadeiras com um oficial do exército, que até nem era do Barreiro. Para “malta“ mais nova sou o “Oficial“.

Fotógrafo amador

- Comecei a fotografar a sério antes dos trinta anos. A minha primeira máquina tinha flash com uma lâmpada e trabalhava a pilhas. Gostava de fotografar a miudagem. Não tardou muito, começaram a convidar-me para baptizados. Entretinha-me a tirar fotografias nas revistas de carnaval dos Franceses, com os amadores Marcos Lobato, Lenine Silva, Luís “Barriguinha“, Alfredo Nunes, Luís Rolão, e outros. E o Toino “Anão“. Fui muito amigo do Augusto Cabrita. Chegou a convidar-me para  ir fazer coberturas de casamentos, agradeci mas não quis, pois não me desejava comprometer.
- As tuas composições são quase únicas…
- Sim, fazia montagens de equipas, de personagens, de cenas, sobre fundos escolhidos, geralmente postais ilustrados.
- Fotografar saía caro?
- Mandava revelar no Zózimo (Foto Mistério), em frente da Sapataria Guinot. Não era assim tão caro como isso. Fui oferecendo fotos. Quanto às imagens de desporto ofereci-as mais tarde ao Luso e à CUF, as destes clubes. Queria dar muitas ao Barreirense, também composições, mas disseram-me que ninguém ligava àquilo. Foram para amigos e  adeptos interessados.

 

Uma vintena de fotos na Monografia  /  Coleccionador

Quisemos saber com quantas fotos José Joaquim contribuiu para a Monografia do Barreiro, de Armando S. Pais. Quem aqui escreve deu-se ao trabalho de folhear toda a obra com essa finalidade. Nos três volumes  “Barreiro Contemporâneo“ está assinalada uma vintena de instantâneos com o nome do autor José Joaquim. Por exemplo, as imagens da Av. Alfredo da Silva, Largo Rompana, Alburrica, Bombeiros de Salvação Pública, da inauguração do Ginásio-Sede do F.C.B, Campo do Luso, Os Leças, Sempre Fixe, S.F.A.L., Muralha Marginal,  etc.
- Sim, para os livros do Barreiro o teu pai publicou fotos minhas, umas já existiam, outras fui tirá-las de propósito. Tratávamos do assunto no Tico-Tico, ou na Galega, onde ele ia comer aos domingos. Recordo-me que o prato preferido do Armando Pais era besugo grelhado e, quanto à fruta, melão.
- Há algo para contar sobre a foto da família Mello que fixaste na  inauguração da estátua a Alfredo da Silva, em 30 Junho de 1965? Ela consta na pag. 31 do III volume do “Barreiro Contemporâneo“.
- É verdade, uma das imagens dessa minha reportagem veio a ser utilizada pelo Armando Pais.  Lembro-me que Manuel de Mello já estava muito doente. Um filho tirava-lhe o maço da algibeira e metia-lhe o cigarro na boca. Enviei para a Sede da CUF cópias das fotos onde se viam membros da família Mello. Recebi um cartão a agradecer. Mais tarde, já reformado, fiz uma série de montagens incluindo uma com a imagem do filho do Jorge de Mello a acompanhar o avô quando este foi descerrar o monumento a Alfredo da Silva. Recortei-a, colei-a sobre um postal colorido da Praça Marquês de Pombal. Enviei para a CUF. Jorge de Mello mandou-me um cartão a agradecer. Eu não vendia as minhas fotografias... Não me movia qualquer interesse económico. Por vezes, os pais das crianças que fotografava retribuiam-me com moedas mais antigas. Que eu trocava, ou dava. Tornei-me como que um numismata, era um passatempo. Depois veio a brincadeira com as colecções de maços de tabaco. Fazia camisas com os maços e apresentava-as em painéis.  Com os emigrantes foi um corrupio. Traziam-me, para além das moedas correntes, maços de tabaco. Tive de muitas marcas da Europa. Acabei quando começaram com as embalagens em papelão. Ainda tenho aí muitos painéis antigos.

Império F.C.B.  /  F.C. Barreirense

- No futebol eu alinhava sempre a avançado, à esquerda. Todos evitavam jogar naquele posto. Eu nem sou canhoto, mas habituei-me a jogar à ponta-esquerda. Mas não fugia muitas vezes pela esquerda. No Império fui das reservas, nos torneios oficiais do Núcleo do Barreiro, mas joguei várias vezes no primeiro team. Foi o caso numa partida em Alhandra em que alinhei ao lado do Tanganho e do Armando Ferreira, dois grandes futebolistas.
Outra vez ajudei a ganhar um troféu (um quadro de cortiça) contra o nosso grande rival no Barreiro, o Nacional F.C., da Rua Miguel Pais, onde jogavam o Artur Quaresma e o “Casa Pia“ (Rodrigues).
- E com a camisola do Barreirense?
- A minha estreia foi em 1936/37 no Lumiar. (N.I.: Tratou-se do último Campeonato de Lisboa disputado pelo Barreirense!). Faltou um jogador nas segundas e o Paulino “Marreco” pôs-me a jogar sem eu estar inscrito. Uma vez fui treinar ao Benfica com os meus colegas Chico Eloy e Eliseu (N.I.: 1937/38). Estava lá o Raul Baptista (antes titular do Barreirense) que perguntou: - “Então o Barreirense transferiu-se para aqui?“. Estive para me estrear nas primeiras quando o treinador era o José João, mas à última hora jogou outro.
Consultámos os arquivos. José Joaquim actuou nas reservas do F.C.B., por exemplo ao lado dos titulares Carlos Silva, João Limas, Serra. Mas normalmente alinhava nas segundas, disputando ainda alguns encontros na época 1947/48). Eis nomes de colegas das segundas que subiram às primeiras: Gervásio, Januário, José Jordão, Pedro Rodrigues, Augusto Vale.
Agradecemos ao nosso entrevistado. Todos sempre o conheceram de espírito aberto, são, desempoeirado, jovial.  Hoje não pode ser tão activo como dantes, mas continua laborando em ideias estéticas e bairristas. Um abraço e as melhores felicidades.

Morreu José Joaquim, o “Oficial”,  “Saca-rolhas”, uma figura popular, um amigo            
Texto abreviado do obituário publicado na “Voz do Barreiro” de  31 de Março de 2001

Não podia crer quando me informaram pelo telefone que o “Oficial” falecera, em 10 de Março. Contava 84 anos. Ainda há um mês e dias o voltara a visitar no Lar da Misericórdia. Lá continuava, com as capacidades mentais de sempre. Eu sabia dos seus problemas circulatórios, a avaliar pelo deplorável estado das pernas. Ele, que tanto futebol jogara nos velhos tempos… Representou o Império na categoria de reservas, e o Barreirense, nas segundas. Há que acentuar que o Zé Joaquim envergou a camisola do Barreirense ainda no Distrital de Lisboa (NI: até 1937). Muito poucos restam que se podem gabar disso. Ele não ganhou um tostão com a bola.
O pai, irmãos e irmã receberam o apelido Rodrigues. Quando José Joaquim foi registado sucedeu uma trafulhice. Ficou com os dois nomes próprios, mas sem apelido. “Em compensação” seria conhecido por duas alcunhas. Em garoto, o pai chamou-o algumas vezes “Saca-rolhas”, em virtude dos seus caracóis compridos. E assim ficou. A certa altura dava-se muito com um oficial do exército, na Arrábida, a praia do seu coração. Começaram a tratá-lo por “Oficial” e o apodo pegou...
Muito jovem andou na cortiça, depois na CUF até à reforma. Nunca precisou de muito dinheiro. Até parece que vivia da simpatia que irradiava. Onde ele aparecia, nos restaurantes, cafés, a boa disposição estava garantida. Enquanto gozou de saúde, claro. Adorava a liberdade de movimentos. Resolveu não casar. Preferia andar aí – como me confessou – na “galfarragem”.
Em Janeiro surgiu a sua segunda entrevista na V.B., versando sua faceta de fotógrafo amador. Com a maior paixão, fotografou o seu Barreiro, com suas crianças, atletas, artistas. E, muito especialmente em Lisboa, também fixou mulheres bonitas. Esmerava-se nas composições de fotos de grupos, onde por vezes apontava os nomes de todos. Assinalava com um “xis” aqueles que iam morrendo. Não negociava com os retratos. Quem quisesse pagava-os com cafés ou moedas mais antigas. Os “emigras” quando vinham de férias traziam-lhe maços de tabaco, com os quais o Zé Joaquim fazia uns painéis muito especiais. Ele era assim… E orgulhava-se muito de ser do Barreiro, e só adepto do Barreirense, assim à maneira antiga. E estava bem ligado aos “Franceses”. Era comunista, “mas não ia a todas”, revelou-me. Porém, enquanto pôde, fisicamente, não faltava nas campanhas do PC, e fotografava...
Anos a fio, até ser admitido no Lar, o Zé Joaquim arranjava-me um exemplar de cada moeda comemorativa que aparecia. Só queria o pagamento justo, coisa que eu não podia aceitar. Mas  nunca me pediu um favor. Era o seu jeito. Creio bem que, até ele começar a sofrer achaques próprios da idade que atingiu, creio bem – repito – que foi uma pessoa feliz. Quando queria, o Zé Joaquim sabia emprestar à voz uma tonalidade maviosa que dava para convencer os comparsas mais insensíveis. E com os anos foi adquirindo uma mímica muito própria, que – sinceramente – por vezes me fazia lembrar os cómicos italianos dos anos cinquenta, que eu tanto apreciava.
Quando me viu dias após a publicação da entrevista de 6 de Janeiro, saiu-se com esta: - “Eh pá, aquilo não `tá mal! Mas há lá um erro”.  Admirado, retorqui: - “Não me digas... É o quê?”. Pois, naquela entrevista, eu escrevera que a excursão a Roma fora organizada pelo Clube de Campismo. Mas... –“Não, quem a organizou foram os Leças”. Aqui fica  a rectificação... Recordou-me com prazer que, no regresso dos Jogos Olímpicos de Roma, em 1960, tinha feito campismo em Zurique.
O “Oficial” – nunca o tratei por “Saca-rolhas” – não deixou de ser uma figura popular. Mas não daquelas figuras que ficam na memória por terem modos pouco correctos, por dizerem muita patacoada, ou coisa no género. Nada disso, ele será sempre lembrado pelo sorriso cativante e porque era um camaradão, um amigalhaço. Em todos aqueles anos apenas o vi explodir uma vez, e durou só segundos. Prometeu-me que, para a próxima vez, me ofereceria uma caixa que tinha em casa, contendo negativos de fotos antigas suas. Paciência…
Reparo agora que nunca da minha pena saíra evocação tão… “popular” como esta. Ficará como homenagem e prova de saudade a um amigo popular. - “Adeus, Zé Joaquim, que a terra te seja leve. Eh pá eh, vamos para lá todos...”.

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O ALBUM DO "OFICIAL"