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PLÍNIO  SÉRGIO  SOARES      (1932 - 2002)

Empregado da CUF, cançonetista, fadista, profissional de comunicação e publicidade

Aqui há poucos anos, este escrevente ficou bastante satisfeito quando, manobrando no google, detectou um blog (ainda que curto) dedicado ao cantor Plínio Sérgio, então já falecido. O autor afirmou ter sido seu colega de canto no Restaurante Luso, em Lisboa. Sempre apreciara o barreirense, tornara-se amigo dele. Notei que a palavra Barreiro apenas se lê uma vez no blog, quando se indica de que terra Plínio era originário. Como por encanto, ouve-se Plínio entoando uma balada de Coimbra. Que voz tão bela ele tinha... Um grande obrigado ao autor do blog. 
Plínio Sérgio foi um cançonetista (digamos) semi-profissional. Chegou a actuar na Madeira, em Angola, Moçambique. Também trabalhou no teatro musicado, gravou bom número de discos. A partir dos anos 60 passou a dedicar-se muito mais aos fados de Coimbra. Chegou a ser considerado dos melhores, senão o melhor intérprete das baladas estudantis. 
Em 24 de Junho de 2005 divulgámos no “Jornal do Barreiro” um longo obituário referente a Plínio Sérgio.  Poderá ser lido, de novo, aqui a seguir...

Um grande nome da canção e do fado de Coimbra

Evocação de Plínio Sérgio, barreirense, falecido em Novembro de 2002

Lá na década de 50 (aquela em que o “J.B.” nasceu  e se expandiu), era mais que normal que ao sintonizarmos uma estação de rádio estivesse precisamente no éter um(a) barreirense interpretando uma canção. Ainda após o aparecimento da televisão em 1957, anos a fio, pelo menos por toda a década de 60, admirávamos constantemente as actuações de artistas da vila industrial e progressista do Barreiro. Os jovens de hoje poderão questionar-se: Não haverá exagero da minha parte? Olhe-se que não...
Lembremo-nos de Maria de Lourdes Resende (a nossa Milu, que se sagrou Raínha da Rádio), Fernando Farinha (que se estreou com 10 anos no Cinema República, andou no Asilo D. Pedro V e quando foi para a capital se tornou o famoso “Miúdo da Bica”, Rei da Rádio e do Fado). Outro grande foi Moniz Trindade (do Bairro Operário, com óptima carreira no Brasil, o nosso último Rei da Rádio). Depois tínhamos a Maria Emília Guinot (a Deanna Durbin portuguesa, que no auge da brilhante carreira se retirou), a Palmirinha (ali do Bairro Preto, que desemboca no Largo Rompana), a Maria Adelaide (com marcante alcunha de família), mais tarde a Mariette Pessanha. E Plínio Sérgio, à memória do qual este seu primo dedica, com saudade, uma singela evocação.
Aquilo, naquele tempo, era mesmo muita estrela da rádio para um vila só!... Mas, cá da terra, a gente apreciava na rádio e na TV não só cantores. Também brilharam os relevantes conjuntos musicais do Barreiro. (Já os havia nos anos 30). Os de Ferrer Trindade e José da Silva “Estola” terão sido, talvez, os mais famosos de todos os tempos.
Plínio Sérgio morreu...
Quantos dos leitores saberão que o Plínio nos deixou para sempre? E tal já desde há dois anos e meio? Sinto-me no dever de escrever este texto. O Plínio foi figura de grande currículo artístico, a partir dos anos 50. (Era meu simpático primo, um “Patacas”, de sobrenome. O seu avô materno era irmão da minha avó paterna. O “Patacas” primitivo chamou-se Manuel Rodrigues da Silva, lavradiense, que lá pelo reinado de D. Miguel amealhou uns bons cobres no comércio com a “Terra das Patacas”, o Brasil. Aquele “Patacas” deu o nome a um beco do Lavradio).
Plínio Sérgio da Silva Soares nasceu na vila em 4 de Maio 1932, filho do ferroviário Mariano Soares, de Beja, e de Emília Cândido da Silva, do Barreiro. Frequentou a escola primária da CP a dois passos das Oficinas Gerais.  Após estudos liceais no “Colégio do Seixas” o Plínio (simplesmente Plínio...) empregou-se como escriturário na CUF local, sempre sob a “protecção” do tio e padrinho Luís César da Silva “Patacas”, que chegou a chefe do escritório central do Barreiro daquele empório industrial. Plínio transitou depois para a CUF de Lisboa, na Rua do Comércio, mais tarde na Profabril, etc. Ele sempre ia conseguindo licenças sem vencimento que possibilitavam digressões artísticas pelo Ultramar e estrangeiro.
Desde cedo Plínio Sérgio demonstrou propensão para o canto. Com facilidade encontrei agora veteranos que se recordam das suas esplêndidas actuações no Clube 22 (onde se estreeou aos 17 anos), no Cinema República (onde o pai Mariano era um dos sócios-gerentes), no Cinema-Ginásio da CUF, etc. Também participou em benefícios a favor do Ginásio-Sede do Barreirense. (Ele era ferveroso rubro-branco, sendo seu director em 1959). Um grande amigo que tanto o acompanhou ao piano foi Alberto Seruca.
Em 1951 começou nos saudosos Passatempos APA e Comboio das Seis e Meia. Logo nesse ano passou a fazer parte, por concurso, do elenco artístico da Emissora Nacional. Anos depois pertenceu ao quadro do São Carlos (com os barreirenses Maria Adelaide e Gentil Coelho). Em 1955 ganhou o prémio instituído pelo “Distrito de Setúbal” para o cantor mais popular do distrito. (Maria de Lourdes venceu o prémio da cantora. Só para “chatear” eram os dois do Barreiro). Plínio exibiu-se na TV. Fez muito teatro musicado, operetas. Teve gravações comerciais. Na segunda parte dos anos 60, o dr. Paradela de Oliveira entusiasmou Plínio a dedicar-se ao fado de Coimbra. Consagrou-se então à melodia estudantil, pertencendo também ao famoso conjunto dirigido pelo dr. Luis Goes.   
Quase no fim, um pouco na política...
Guardei uma entrevista do Plínio a um diário lisboeta, datada de 1980. (Não mais o vi desde aqueles tempos, o que tanto lamento...). Ele continuava um ás do fado coimbrão. Actuava então cinco dias por semana no velho Luso, passara incólume o período conturbado. Também foi artista requestado no Faia, de Carlos do Carmo. Em 1980 – disse o cantor na entrevista – trabalhava no jornal “Record, no sector da publicidade”.  
Assumia o semiprofissionalismo de sempre. No final, o jornalista formulou uma pergunta referente à “função da canção na sociedade verdadeiramente  socialista”, a que Plínio respondeu  “ser importantíssima para o desenvolvimento intelectual..., um povo sem cultura não vê nada para além do sítio onde está”.  Compreendo a “ténue” alusão por parte do entrevistador... É que Plínio esteve ligado ao PS, foi mesmo - como me confirmaram - assessor do primeiro Governador Civil PS de Setúbal e de Tito de Morais...  O PS local certamente não o esquecerá.
O nosso evocado era muito culto. Afirmou na entrevista serem “a música e a literatura” as suas duas grandes paixões. Eu acrescentaria que ele teve uma terceira paixão, também bonita, mas mais “perigosa” que as outras duas... É que ele foi pessoa de atraente envergadura, agradável, insinuante, um “charmeur”. Os elementos do “belo sexo” embebeciam-se com ele. O meio artístico sempre se propiciou a isso.  
Mea culpa...
Aqui há uns três anos, minha irmã recebeu dois telefonemas do Plínio. Ele abria-se no mesmo riso dos varões da nossa família, por exemplo de meus pai e tio. Deixou o número do telemóvel. Passados bons meses telefonei, queria voltar a vê-lo, depois de tantos anos. Mas o número já não operava. Um aborrecimento, pois não encontrei maneira de saber do seu paradeiro. Depois da morte dos pais nos anos 70, o Plínio raramente vinha ao Barreiro. A última vez que ele pisou um palco barreirense terá sido nos Franceses, quando da homenagem póstuma a Mariette Pessanha, reportada na imprensa em Abril de 1998.
Eu ia sempre perguntando a este ou àquele se sabiam do Plínio. Tive azar, nada... Até que um dia alguém me disse qualquer coisa como “parece que morreu”. Em visita posterior ao Barreiro alguém adiantou-me um: “ouvi dizer que morreu”.   
Impossível, pensei. Quantos casos conheço eu de “assassinados” em conversas de mercado ou à mesa de café... Um artista do seu gabarito... Se tivesse desaparecido, viria a notícia publicada. Alguém me teria transmitido o infausto desfecho. Para mais, ele tem no Barreiro outros familiares próximos.
Na minha última estadia por cá, pensei: Basta! Dirigi-me à Conservatória, com a data do nascimento do Plínio. Chegada a minha vez, cinco minutos depois tinha a certeza da para mim tão triste notícia. O Plínio morrera em Arrentela, Seixal, com 70 anos, em 18 Nov. 2002. Nunca me perdoarei. Tantos anos estive para me reencontrar com ele. Não lhe foi feita a entrevista abrangente para sair na imprensa da nossa terra.
Por mero acaso, vim a obter depois comunicação telefónica com uma senhora barreirense que sabia confirmar a morte do Plínio Sérgio, chegara a visitá-lo num lar do outro lado do Coina, onde ele veio a falecer muito debilitado. Não consegui o contacto da sua segunda esposa ou dum descendente. Cumpro aqui um dever para com os muitos amigos e admiradores daquela antiga grande “estrela” da rádio e dos palcos, possuidora de tão linda, máscula voz. Foi um excelente intérprete das canções lusas, como as de Luís Piçarra, dos fados estudantis de Bettencourt ou Menano. Teve um sonho irrealizado: o de ser cantor de ópera. Como ele interpretava bem árias de Verdi... 

Carlos Silva Pais / Zurique