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 AUGUSTO   GIL  (1873 -  1929)
Advogado, funcionário público, poeta

Quantas gerações de cidadãos já se deslocaram de barco, regularmente, entre o Barreiro e a capital... Ainda há por aí muitos – este escrevente é um deles - que bem se recordam das travessias do estuário do Tejo de há meio século, nos tempos da CP. Por exemplo, como passageiro no tão histórico Évora (o mais rápido), no Alentejo, no Trás-os-Montes, no Algarve. Bem mais tarde surgiram os chamados catamarãs, em que os passageiros lucravam aí uma dúzia de minutos, naquelas belas deslocações entre as duas margens do Tejo. Houve que “baptizar” esses vapores de mais rápida propulsão, e a Soflusa decidiu atribuir-lhes nomes de nossos notáveis homens das letras. (Esperamos que um dia apareçam catamarãs com nomes de senhoras. E a primeira seria, pensamos, a imorredoira lírica Florbela Espanca).

Quem foi Augusto Gil?
Em 2004 demos à pena sobre o barco de carreira Augusto Gil, em longo escrito divulgado no Jornal do Barreiro. Será que a maioria dos passageiros de hoje, em especial aqueles até à meia idade, que chegam a Lisboa (ou de lá vêm) no pressuroso “Augusto Gil”, sabem quem foi o patrono da embarcação? Bem, com o lindo catamarã ligou-se bem o nome do Barreiro ao grande vate... Este “Gil” dirá alguma coisa a muitos? Terá este sido um famoso almirante? O Eanes? Mas não o Ramalho, que foi Presidente desta República, mas aquele Eanes que ultrapassou o cabo Bojador em 1434...?  Sim, o tal Gil Eanes? Então, o Augusto Gil do catamarã terá sido o mesmo que escreveu os Autos das Barcas? Ou esse foi o Gil Vicente? Mas, atenção, também existe por cá um catamarã chamado “Gil Vicente”. (Vide foto anexa). Embora ainda não haja nenhum “Gil Eanes”. Ai que tremenda confusão...
Leu-se há anos que se suprimira a obra do dramaturgo e poeta Gil Vicente do currículo do ensino secundário. E também foi posto de lado o poeta Cesário Verde. E, talvez para compensar introduziram o “Memorial” de Saramago “Encarnado”, como leitura obrigatória. Parece que o “Memorial do Convento” saramaguiano não é nada instrutivo para os jovens aprenderem as regras da pontuação. Mas, por outro lado, aquela obra do Nobel Saramago, profundamente didáctica, ajudará a preparar os mais novos para uma sólida, saudável, educação laica e sexual... Aqui, desta modesta tribuna, alvitra-se à Soflusa que atribua, aos futuros catamarãs, os nomes de todos os nossos escritores clássicos que foram eliminados do ensino secundário. A ser aceite esta nossa sugestão, o próximo catamarã poderá bem chamar-se Cesário Verde.... E fazemos votos para que um dia apareça um catamarã chamado Luís de Camões. (Mas o volume dos Lusíadas, embora colonialista e muito retrógrado, não deverá ser retirado do currículo!) Mas voltando atrás... Afinal quem foi o vulto Augusto Gil?
Batem leve, levemente...”
Deixemos este estilo de veraneio... Em tempos idos, quantos alunos decoravam estrofes duma poesia de Augusto Gil. (Sem para isso serem obrigados pelos professores!). Oh, era a “Balada da Neve que assim rezava:

Batem leve, levemente, como quem chama por mim, será chuva, será  gente? Gente não é certamente, e a chuva não bate assim. // É talvez a ventania; mas há pouco, há poucochinho, nem uma agulha bulia na quieta melancolia dos pinheiros do caminho..// Quem bate, assim, levemente, com tão estranha leveza, que mal se ouve, mal se sente? Não é chuva, nem é gente, nem é vento, com certeza. // Fui ver. A neve caía, do azul cinzento do céu, branca e leve, branca e fria..., -Há quanto tempo a não via! E  que saudades, Deus meu! // Olho-a através da vidraça. Pôs tudo da cor do linho. Passa gente e, quando passa, os passos imprime e traça, na brancura do caminho... // Fico olhando esses sinais, da pobre gente que avança, e noto, por entre os mais, os traços miniaturais duns pèzitos de criança. // E descalcinhos, doridos... A neve deixa inda vê-los, primeiro, bem definidos, depois, em sulcos compridos, porque não podia erguê-los! // Que quem já é pecador sofra tormentos, enfim! Mas as crianças, Senhor, porque lhes dais tanta dor? Porque padecem assim? // E uma infinita tristeza, uma funda turbação entra em mim, fica em mim presa. Cai neve na Natureza... e cai no meu coração.”

Augusto Gil   /   Stuart Carvalhais
Há décadas – afiançáram-nos – surgiu um livro de versos de Augusto Gil, com desenhos de Stuart Carvalhais, que obteve enorme sucesso, com bom número de edições. Tratava-se de sátiras às ligações entre os dois sexos. Seguem-se bem ligeiros tópicos biográficos de ambos os autores:
José Stuart Carvalhais (1887-1961), nasceu em Vila Real, faleceu em Lisboa. Foi distinto ilustrador, caricaturista, decorador artístico. Boémio, durante décadas assinou críticas em forma de histórias de quadradinhos ou bonecos (hoje nomeia-se, mais finamente, banda desenhada e cartoons), divulgadas na grande imprensa ou em publicações humorísticas. Ficaram famosas as suas figuras populares e os seus Diabos falando desde o Inferno.
Augusto César Ferreira Gil (1873-1929), nasceu em Lordelo, Paredes. Republicano, foi Governador Civil na Guarda e advogado em Lisboa, onde expirou. Os versos de Augusto Gil calaram fundo na alma do Povo. Citamos de sua poesia neo-romântica e por vezes um tanto “maliciosa”:
 “Permitiu que lhe desse tantos beijos, quantos eram os anos que ela tinha. Cheguei ao fim da conta com desejos, de que fosse uma velhinha. // Sete pecados mortais me ensinaram na doutrina. Conheço agora dois mais: São os teus lábios, menina... // Só raros haverá que se não doam; Os restantes, porém, todos se queixam. As bonitas atraiçoam e as feias não nos deixam... // Ninguém melhor fama goza; mas eu não a julgo assim. Uma mulher virtuosa pode lá gostar de mim!... // Com teus olhos libertinos, as mudanças que tu fazes! Tornas os velhos, meninos, e envelheces os rapazes...”.
Quando preparámos este trecho brotou-nos um “arrebatamento” poético. A nós, que nunca demos para poetizar... Eis a sestilha: ”Quem se lembre desta poesia / a bordo do veloz “Augusto Gil” / tanto faz à ré, como na proa / respira mais fundo a maresia / ama mais o Tejo das águas mil / sonhando entre o Barreiro e Lisboa!...”. (C.S.P.)
                  

Maria Helena Bota Guerreiro também versejou Augusto Gil
Sim, Maria Helena B. Guerreiro – que pagou tributo à vida em 2007 – também dedicou trovas a Augusto Gil. Da parte do acervo que possuímos desta barreirense extraímos, para este trabalho, um soneto que ela dedicou a este nosso rememorado. Sim, aquela estimada senhora, tão inspirada poetisa muito cantou em verso, em especial os motivos barreirenses, assim como cidadãos dos mais variados ramos de actividade e de política. Ao longo da vida ela chamou a si mais de 30 prémios em jogos florais e concursos literários, em especial levados a efeito no sul do País. Versejou quase meio século para o Jornal do Barreiro. Mas a nossa insigne trovadora não foi homenageada oficialmente pela sua terra natal. (“Enfim!” – Augusto Gil).

 

    Augusto Gil

A morte muito cedo arrebatou
Augusto Gil, um lírico mimoso,
Admirável, dum sentir mavioso,
Duma simplicidade que encantou.

Qualquer alma sensível decorou
Suas poesias num jeito amoroso,
Poeta de alma nobre, e generoso,
No coração do povo ele entrou.

Doía-lhe a dor, a amargura,
Falava do amor com tal ternura,
Que o seu sentir, tão belo, enternecia!

Amava tanto a gente e a natureza,
Poeta de amor e de beleza,
Poeta popular, cheio de magia!

Maria Helena Bota Guerreiro  (2002)
 
 
     

AUGUSTO GIL - IMAGENS